terça-feira, 30 de junho de 2015

As tocantes verdades da flor (Parte 4)


A expiação limitada
Muitos arminianos tentam se livrar da doutrina da eleição incondicional, afirmando a eleição condicional. Eles dizem que a eleição é uma realidade bíblica, mas que está condicionada à previsão da fé. Trocando em miúdos: Deus elegeu sim, mas ele fez isso porque previu de antemão a fé de alguns. Essa ideia tenta buscar fundamentos na expressão “os que de antemão conheceu”, presente em Romanos 8.29. Essa frase, porém, não significa “aqueles em quem Deus anteviu a fé”, mas sim “aqueles a quem Deus decidiu de antemão mostrar seu favor” (veja o mesmo sentido em Rm 11.2). Note ainda que, de acordo com 1Pedro 1.20, conhecer de antemão não é somente saber o que vai acontecer, mas sim saber o que foi decretado que vai acontecer.
Outro texto que os arminianos usam na defesa da eleição condicional é 1Pedro 1.2 que diz que os crentes foram eleitos “segundo a presciência de Deus”. Contudo, a preposição grega usada nesse versículo (katá) não permite o entendimento de que as pessoas foram eleitas por causa da presciência de Deus, mas sim que Deus, de conformidade com sua presciência, sabia desde o início a quem iria salvar.
Tudo isso realça o antigo princípio paulino de que a eleição teve como causa “aquele que chama” (Rm 9.11) e não aqueles que são chamados, destacando fortemente que o decreto eletivo do Senhor se fundamentou unicamente no “beneplácito de sua vontade” (Ef 1.5,11) e não em virtudes que porventura tenha antevisto em alguns. Isso também destaca a gratuidade completa da eleição, pois mostra que ela não foi uma retribuição pelo bem que Deus supostamente viu de antemão no eleito (o que ele, de fato, anteviu no eleito foi somente pecado e morte) e sim um ato de graça pura, verdadeiro favor imerecido.
A verdade da eleição incondicional conduz forçosamente à terceira “pétala” da Tulipa: a expiação limitada. A pergunta central ligada a esse ponto é a seguinte: Se Deus tem seus eleitos, por quem então Cristo morreu? A resposta rápida e certeira é: Pelos eleitos, é claro! No entanto, mesmo sendo isso tão óbvio, a terceira verdade da flor é a que mais tem causado divisões e conflitos até mesmo entre os teólogos reformados. Entre estes há muitos que afirmam a expiação ilimitada, posição também conhecida como universalismo hipotético. De acordo com essa concepção, Cristo morreu em benefício e em lugar de todos os indivíduos, mas sua morte só tem eficácia para os eleitos.
Os universalistas hipotéticos (ou calvinistas de quatro pontos) ensinam que Deus decretou que a expiação de Cristo fosse feita em favor de cada ser humano independente de crerem ou não, mas visto que ninguém tinha capacidade de crer (depravação total), Deus escolheu aqueles que iria salvar (eleição incondicional). Assim, a expiação permanece eficiente e suficiente para todos, mas eficaz somente para os eleitos.
O universalismo hipotético ganhou destaque graças ao trabalho de Moisés Amyraut (1596-1664), da Academia de Saumur, na França. Por isso, essa posição teológica é também chamada de amiraldismo ou amiraldianismo.
Ainda que pareça atraente à primeira vista, o calvinismo de quatro pontos esbarra em diversos problemas. Em primeiro lugar, o próprio Jesus disse que daria a sua vida “pelas ovelhas” (Jo 10.11,15). Disse ainda que muitas dessas ovelhas por quem ele morreria estavam espalhadas fora do aprisco de Israel, mas que elas afinal creriam nele e ele as agregaria (Jo 10.16). Depois, voltou-se para os judeus que o afrontavam e disse: “Vós não sois das minhas ovelhas”, excluindo-os desse grupo por quem ele morreria e um dia chamaria para si (Jo 10.26).
Jesus também disse que daria a sua vida em resgate de muitos (Mc 10.45) e, ao instituir a Ceia, repetiu essa verdade, declarando que o sangue da Nova Aliança seria derramado em favor de muitos, limitando o alvo de sua obra (Mt 26.28).
João, em seu evangelho, ao fazer alusão ao objetivo da morte de Cristo, disse que ele morreria para reunir “os filhos de Deus que andam dispersos” (Jo 11.51,52), ou seja, pelo bem de um grupo específico que estava espalhado pelo mundo e que ainda não tinha sido alcançado (Tt 2.14).
Paulo, por sua vez, quando falou aos presbíteros de Éfeso, disse que o sangue de Cristo serviu para comprar a igreja (At 20.28). Quando mais tarde escreveu à mesma igreja de Éfeso, o apóstolo realçou novamente que Cristo se entregou pela igreja (Ef 5.25). O Apocalipse aponta na mesma direção, dizendo que por sua morte Cristo não comprou todo mundo, mas sim certas pessoas espalhadas pelo mundo todo (Ap 5.9).
Outra questão que deve ser levada em conta é que a morte de Cristo teve um efeito retroativo, beneficiando pessoas do AT, ou seja, indivíduos que já haviam morrido, como Abraão, Moisés e Davi, por exemplo (Rm 3.25; Hb 9.15). Assim, se Cristo morreu por cada ser humano, então ele morreu inclusive por pessoas do AT que já estavam no inferno — gente como Faraó, Jezabel e os inimigos de Daniel. Ora, que sentido haveria em Cristo dar a sua vida pelos pecados de pessoas irremediavelmente perdidas? Morrer pagando pela redenção do profeta Isaías faz sentido, mas morrer em favor dos homens de Sodoma teria algum propósito?
A doutrina da expiação limitada também tem que lidar com certas dificuldades oriundas de algumas passagens bíblicas. Por isso, no próximo artigo, vamos dedicar umas poucas linhas para resolver essas questões.
(Continua)

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

As tocantes verdades da flor (Parte 3)


eleição incondicional
Conforme dito anteriormente, as cinco verdades da Tulipa estão interligadas de forma que, se você rejeitar a primeira, terá de rejeitar a segunda e assim por diante. Pois bem, até o século 18, seria muito difícil encontrar um protestante que negasse o primeiro ponto da fé reformada, ou seja, a depravação total. Todos os reformadores tinham ensinado que o pecado havia afetado gravemente cada faculdade humana e os crentes viam isso claramente nas Escrituras. Consequentemente, a grande maioria dos crentes desde a época da Reforma (século 16) também aceitava a eleição incondicional, pois, se o homem era incapaz de se mover na direção de Deus, então a única saída era Deus tomar a iniciativa e se mover na direção do homem, quebrando seu coração endurecido. Por que Deus fazia isso somente com alguns e não com todos? A resposta estava mais uma vez na Bíblia: Deus tinha seus eleitos!
Ocorreu, porém, que os avanços científicos e tecnológicos dos séculos 18 e 19 criaram um ambiente intensamente otimista em relação ao homem e também fortemente cético em relação aos dogmas da Bíblia. Nesse contexto, várias doutrinas consagradas da fé cristã foram negadas inclusive por pastores e teólogos (os chamados teólogos liberais). Entre essas, uma que foi totalmente repudiada foi a doutrina do pecado original que destacava a realidade da depravação total. Rejeitando essa doutrina, as igrejas passaram a ver o pecador como alguém capaz de tudo, até de, por si mesmo, produzir a fé salvífica no próprio coração, bastando apenas que decidisse fazê-lo. É claro que, rejeitando a depravação total, os crentes, a partir de então, rejeitaram também a doutrina da eleição, ou a reinterpretaram de forma que preservassem seu conceito positivo do homem.
A partir daí, muitas pessoas viram nas ideias de Armínio uma opção atraente. Seu conceito de um livre-arbítrio resgatado pela “graça preveniente” e suas ideias de uma eleição baseada naquilo que Deus antevê no homem se encaixavam melhor dentro do ambiente humanista que passou a reinar.
É por causa de todo esse processo iniciado no século 18 — um processo racionalista/humanista — que grande parte das igrejas evangélicas de hoje é liberal ou arminiana. Aliás, muitos liberais são também arminianos (são os arminianos da mente, em contraste com os arminianos do coração), dizendo que o homem tem as faculdades livres (ênfase arminiana) e negando a depravação total como uma ideia decorrente do “mito” da Queda (ênfase liberal).
Conforme já foi destacado, sem a doutrina da depravação total, a verdade da eleição incondicional cai por terra. No modelo arminiano, o homem, tendo as faculdades livres dos efeitos do pecado pela ação da “graça preveniente”, é capaz de ele próprio eleger Deus. No fim das contas, a eleição deixa de ser um ato divino em favor do homem e passa a ser um ato humano em favor de Deus! Sem a doutrina da depravação total nasce a doutrina da inversão total!
A verdade, porém, é que não existe nenhuma graça preveniente livrando todas as pessoas das limitações impostas pelo pecado, como Armínio acreditava. O coração humano permanece corrupto e está morto para as coisas de Deus, sendo incapaz de buscá-lo, amá-lo ou desejá-lo. Para que isso mude, é necessária a ação sobrenatural da graça de Deus. E essa graça não atua sobre todos como pensam os arminianos. Atua somente nos eleitos. Estes foram escolhidos sem que Deus visse neles mérito algum (por isso, a eleição é chamada “incondicional”), tudo com base apenas na “determinação e graça” (2Tm 1.9) “daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).
Essa doutrina tem um vasto fundamento bíblico. Jesus afirmou que tinha um povo disperso que lhe pertencia e que ele reuniria esse povo chamando cada integrante dele pelo nome (Mt 24.31; Jo 10.3,16; Jo 11.51,52). Ele disse ainda que esses escolhidos eram poucos (Mt 22.14), mas que eles seriam preservados e protegidos do engano (Mt 24.22,24) e que Deus um dia faria justiça a eles (Lc 18.7).
O livro de Atos também fala sobre os eleitos dizendo que Deus tinha pessoas que lhe pertenciam nas cidades gentílicas e que essas pessoas ouviriam a pregação dos apóstolos (At 18.9,10). Em Atos, é dito ainda que os que criam no evangelho eram pessoas que tinham sido destinadas para a vida eterna (At 13.48).
Paulo é quem mais escreve sobre a doutrina da eleição (Rm 8.29,30; Ef 1.4,5,11), dizendo que essa doutrina realça a soberania de um Deus que tem autoridade de fazer o que quiser com quem quiser (Rm 9.14-18), não tendo o homem o direito de questionar suas ações (Rm 9.19-21). Paulo diz ainda que é graças à eleição que Deus preserva um remanescente fiel a ele (Rm 11.1-5) e que esses escolhidos não podem ser alvos de nenhuma acusação (Rm 8.33). Segundo o apóstolo, a fé salvadora pertence somente aos eleitos (1Ts 1.4-6; Tt 1.1), sendo certo que Deus incluiu no número de escolhidos muitas pessoas simples a fim de humilhar a ilusória grandeza do mundo e ninguém se gloriar diante dele (1Co 1.27-29. Ver tb. Tg 2.5).
Todas essas evidências tornam inegável a eleição de Deus — e os crentes não devem se insurgir contra ela, como faz a corrompida igreja atual. Em vez disso, o cristão deve se curvar em gratidão, sabendo que foi salvo não por ter percepções espirituais melhores, mas porque Deus, sem ver nele atrativo algum, o escolheu soberanamente.
(Continua)
Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

sexta-feira, 26 de junho de 2015

As tocantes verdades da flor (Parte 2)

A Depravação Total

Os teólogos dizem que as cinco verdades da Tulipa alistadas no artigo anterior estão interligadas, de forma que a segunda decorre da primeira; a terceira, da segunda; e assim por diante. Eles estão certos. De fato, os cinco pontos fixados em Dort compõem um sistema unificado e interdependente. Se um ponto for aceito, será muito difícil se livrar dos demais.

É por isso que os oponentes da Tulipa fazem de tudo para desacreditar o primeiro ponto de Dort, a depravação total. De acordo com esse ponto, o pecado afetou a totalidade da natureza humana, cada aspecto dela, não havendo nada que o homem, de si mesmo, consiga fazer para obter o favor divino. Calvino disse que “todos os homens são concebidos em pecado e nascem como filhos da ira, indispostos a qualquer bem salvífico, com propensão para o mal, mortos no pecado e escravos da iniquidade; e sem a graça regeneradora do Espírito Santo, eles não querem nem são capazes de se voltar para Deus, de corrigir sua natureza depravada ou mesmo de se disporem a isso”.

A base bíblica para essa doutrina é ampla: Gênesis 6.5; Salmo 51.5; Jeremias 17.9; João 8.43; 15.4–5; Romanos 3.10-18; 1 Coríntios 1.18; 2.14; 12.3; 2 Coríntios 3.14-16; Efésios 2.1-3; 4.17-18, etc. É por causa desse grau de depravação que o homem depende da iniciativa de Deus para ser salvo (Mt 11.27; Jo 1.13; 6.37,44,65; At 16.14).

Conforme dito, os que se insurgem contra a soteriologia reformada sabem que, se a doutrina da depravação total for acolhida, todo o sistema também terá de ser aceito. Por outro lado, se esse ponto for destruído, todo o edifício da soteriologia reformada ruirá.

No meio evangélico, os maiores inimigos da Tulipa são chamados arminianos, uma designação que vem de Jacobus Arminius, teólogo que se insurgiu contra alguns elementos da doutrina ensinada pela igreja reformada da Holanda. No Brasil, o arminianismo não reflete com precisão as ideias de Arminius. Na verdade, a maior parte dos arminianos que conhecemos se define assim somente porque não se simpatiza com a doutrina bíblica da eleição. A maioria deles nunca leu nada sobre Armínius, nem jamais compreendeu a totalidade da sua doutrina. O que fazem é apenas adotar o título “arminiano” de forma intuitiva, como se fosse uma palavra que significa “alguém que não acredita na predestinação”.

Isso torna o arminianismo brasileiro uma espécie de pelagianismo (doutrina que prega a salvação à parte da ação graciosa de Deus), mesclado com ideias liberais (como a negação da inerrância bíblica, especialmente nas partes em que a Escritura fala do controle absoluto de Deus sobre todas as coisas), marcado por extremado humanismo (a vontade humana é livre e soberana, capaz de gerar fé salvífica) e por um conceito reducionista de Deus (Deus abriu mão de sua soberania por “respeito” ao homem. Muitos arminianos dizem que Deus também abriu mão de sua presciência!).

Se Armínius soubesse o que hoje pregam em nome dele, certamente se reviraria em seu túmulo. Tendo formação calvinista, Armínius rejeitava frontalmente o pelagianismo pregado hoje em dia sob a capa do seu nome. Prova disso é que ele aceitava a primeira verdade da Tulipa, a depravação total. Ele cria, assim, que o ser humano, em si mesmo, é alguém totalmente destituído de qualquer capacidade de buscar a Deus. Ele escreveu em sua Declaração de sentimentos:

“Em seu estado pecaminoso e caído, o homem não é capaz, de e por si mesmo, quer seja pensar, querer ou fazer o que é, de fato, bom; mas é necessário que seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade e em todas as suas atribuições, por Deus, em Cristo, através do Espírito Santo, para que seja capaz de corretamente compreender, estimar, considerar, desejar e realizar o que quer que seja verdadeiramente bom”.

O problema de Armínius estava na solução que dava para esse problema. Ele criou o conceito da “graça preveniente” pela qual todo ser humano tem seu livre arbítrio restaurado, podendo então aceitar a Cristo por decisão própria, sem a necessidade da graça especial irresistível (quarto ponto da Tulipa). É impossível achar na Bíblia esse conceito de “graça preveniente” ou “graça capacitadora” dada a todo ser humano. Aliás, na Bíblia se encontra exatamente o oposto disso, ou seja, Deus endurecendo ainda mais o coração de muitas pessoas para que não creiam (Êx 9.12; Is 6.10; 63.17; Rm 9.18; 11.7 e 2 Ts 2.11).

Bom, em termos práticos quais são os efeitos de se aceitar ou não a doutrina da depravação total? Pessoalmente, eu acredito que isso cause impacto no campo da devoção pessoal, no campo da realização ministerial e no campo da liturgia. Eu explico: no campo da devoção pessoal, o crente que entende a doutrina da depravação total se torna mais humilde e grato por sua salvação, entendendo melhor o quanto Deus foi gracioso com ele. Ele será incapaz de se orgulhar por ter “aceitado a Cristo”, sabendo que era incapaz de qualquer coisa e que, se um dia creu, isso foi graças ao grande poder e graça do Salvador.

No campo da realização ministerial, o ministro terá descanso. Ele saberá que as conversões não dependem de sua retórica ou talento e, por isso, não cansará as pessoas com apelos infindáveis para que “tomem uma decisão”. Também não se orgulhará quando conduzir pessoas a Cristo. Antes, saberá que todos os frutos que vê em seu ministério são obra de Deus e que, considerando a depravação do homem, ninguém daria atenção às suas pregações se o Senhor não atuasse de modo poderoso nos ouvintes.

Finalmente, no campo litúrgico, a igreja que entender a doutrina da depravação total não investirá em projetos de “multiplicação” adotando estratégias de marketing barato (festas, diversão, atrações artísticas) para “conquistar almas”, fazendo de tudo para convencê-las a usar o “livre-arbítrio” e crer. Antes, dará mais valor à pregação e à súplica, sabendo que só pelo poder de Deus a dureza humana pode ser rompida.

(Continua)
Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

As tocantes verdades da flor (Parte 1)


Em 1618, um sínodo eclesiástico reuniu-se em Dort, na Holanda, para definir os pontos principais da igreja reformada no tocante à doutrina bíblica acerca da salvação. Isso ocorreu por causa de certas novidades teológicas, propostas por Jacó Armínio, que estavam tumultuando o contexto reformado e afastando alguns do ensino paulino defendido desde os dias da Reforma Protestante.
Para deixar bem claro e definido no que a igreja reformada cria e o que ensinava e defendia, o Sínodo de Dort fixou cinco pontos que ficaram conhecidos como “os cinco pontos do Calvinismo". São eles:
1. Depravação total
2. Eleição incondicional
3. Expiação limitada
4. Graça irresistível
5. Perseverança dos santos
Em inglês, as iniciais dessa lista formam o acróstico TULIP, o nome de uma flor (em português, tulipa). Por isso, a figura da tulipa ficou associada à fé calvinista e, de vez em quando, a gente vê imagens dessa flor em sites, artigos e livros que defendem a doutrina reformada.
Nossa igreja é calvinista (pelo menos os pastores são). Não somos calvinistas no sentido técnico e pleno da palavra (pois não somos aliancistas), mas somos calvinistas na nossa soteriologia, adotando os pontos fixados em Dort. O fato de sermos calvinistas num contexto teológico tão humanista (que exalta o ser humano) e tão reducionista na sua visão de Deus cria certos problemas. Muita gente se opõe aos nossos ensinos, pervertendo-os, alegando que dizemos coisas que nunca dissemos, torcendo o significado de versículos que embasam nossa fé e até negando a validade e a inerrância da Bíblia nas partes que mostram que estamos no caminho certo.
Há, porém, pessoas que são realmente sinceras no seu desejo de conhecer a antiga fé dos reformadores. Muitos, lendo a Bíblia com o coração aberto, ficam impactados com as doutrinas que foram ensinadas não somente por Calvino, mas por Agostinho, Gotescalco, Tomás de Aquino, João Huss, Guilherme de Occam, John Wyclif, Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio, John Owen, Jonathan Edwards, George Whitefield, Charles Spurgeon e Abraão Kuyper (pra citar somente alguns). Então, entram em contato conosco para fazer perguntas sobre a “tulipa”. É com o intuito de ajudar um pouco essas pessoas que escrevo esta série.
Nos artigos seguintes, quero expor as cinco tocantes verdades da tulipa. Todos poderão entender melhor as maravilhosas dimensões da soteriologia bíblica e, com razões muito mais sólidas, louvar a Deus por sua imensa graça.
Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Riscar o nome do Livro da Vida?

Apocalipse 3:5: O que vencer será vestido de vestes brancas, e de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida; e confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos.

Cristo promete a todo cristão verdadeiro que Ele de maneira nenhuma riscará o seu nome do livro da vida, mas confessará o seu nome diante do Pai e diante dos seus anjos. Incrivelmente, embora o texto diga exatamente o oposto, algumas pessoas assumem que esse versículo ensina que o nome de um cristão pode ser riscado do Livro da Vida. Assim, eles tolamente transformam uma promessa numa ameaça. Êxodo 32:33, alguns argumentam, apóia a ideia que Deus pode remover o nome de alguém do Livro da Vida. Nessa passagem, o Senhor diz a Moisés que “aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro”. Não há contradição, contudo, entre essa passagem e a promessa de Cristo em Apocalipse 3:5. O livro mencionado em Êxodo 32:33 não é o Livro da Vida descrito em Filipenses 4:3, e mais tarde em Apocalipse (13:8; 17:8; 20:12, 15; 21:27). Pelo contrário, refere-se ao livro dos vivos, o registro daqueles que estão vivos (cf. Sl. 69:282 ). A ameaça, então, não é a condenação eterna, mas a morte física. Nos dias de João, os governantes mantinham um registro dos cidadãos da cidade. Se alguém morresse, ou cometesse um crime sério, seu nome era riscado desse registro. Cristo, o Rei do céu, promete jamais riscar o nome de um cristão verdadeiro do rol daqueles cujos nomes foram “escritos, desde a fundação do mundo, no livro da vida do Cordeiro que foi morto” (Ap. 13:8). Pelo contrário, Cristo confessará o nome de todo crente diante de Deus o Pai e diante dos seus anjos. Ele afirmará que eles lhe pertencem. Aqui Cristo reafirma a promessa que fez durante seu ministério terreno: “Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt. 10:32). A verdade confortadora que a salvação do cristão verdadeiro está eternamente segura é o ensino inequívoco da Escritura. Em nenhum lugar essa verdade é mais fortemente declarada que em Romanos 8:28-39:

"E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou. Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; Somos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor".

Fonte: Comentário do Novo Testamento de John Macarthur, Jr.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Os aparentes paradoxos de Cristo

Cristo sentiu fome, como homem, e satisfez no homem a sua fome de Deus. Que contraste – sentiu fome e era o Pão da Vida!

Cristo padeceu sede como homem e, contudo, havia dito: “O que tenha sede, venha a mim e beba!” 

Sentiu-se cansado algumas vezes e, entretanto, é nosso descanso. 

Pagou tributo como vassalo, e era o Rei dos reis. 

Foi chamado de diabo, e todavia expulsou os demônios. 

Orou, e é o que escuta as nossas orações. 

Chorou, e no entanto é o que enxuga as nossas lágrimas. 

Foi vendido por trinta moedas de prata e, a despeito desse ignominioso fato, é o resgate do mundo.

Emudeceu como uma ovelha, e todavia é a Palavra Eterna. 

Não teve lugar próprio onde reclinar a sua cabeça, e contudo pertencem-lhe todas as possessões terrenas. 

Todos o abandonaram; ficou sozinho, e apesar disso, dispunha na Eternidade de incontáveis legiões de anjos prontos a cumprir as suas ordens. 

Foi rejeitado e crucificado pelos homens, embora “tivesse vindo para o que era seu!”

Pense nisso!!!

sábado, 28 de junho de 2014

A Graça Irresistível


Graça irresistível é a doutrina que mantém que um pecador não tem capacidade para recusar a graça especial de Deus ao trazer esse pecador à salvação. Os evangelhos revelam que Jesus ensinou tal doutrina?

Jesus ensinou que a graça eletiva de Deus não pode ser definitivamente recusada por um pecador obstinado. O homem, morto em seus delitos e pecados, não pode escolher a Deus. De modo oposto, um homem que recebeu a graça redentora não pode recusar tal graça. Em João 6.44, Jesus diz que ninguém pode vir a Ele, a menos que o Pai o traga. O verbo grego empregado aqui pode ser literalmente traduzido como “arrastar”. A graça eletiva de Deus é irresistível. Se Deus amou um indivíduo antes da fundação do mundo, se Cristo derramou Seu sangue redentor por esse pecador, Ele não permitirá que essa pessoa pereça. Ele “arrastará” esse pecador à salvação pelo poder do Seu evangelho.


A passagem familiar de João 3 também é ilustrativa da graça irresistível. Em sua conversa com Nicodemos, Jesus compara a salvação a um novo nascimento. É óbvio que um feto, quando a plenitude do tempo chegar, não pode recusar nascer! Antes, o corpo da mãe forçosamente expelirá a criança. A criança não é consultada. Deveríamos esperar que o nascimento espiritual fosse diferente? Se examinarmos nossa conversão, Deus nos implorou para sairmos do túmulo do pecado ou o poder de Deus nos expeliu das trevas para o Seu reino de luz, através do novo nascimento? Jesus nos deu a resposta.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Jesus, os Fariseus e o Livre-Arbítrio


Para muitos, hoje em dia, é intrigante que Jesus coloque tal valor nos direitos soberanos da liberdade eletiva de Deus, a ponto de falar da maneira como o faz àqueles que O rejeitam. Ele fala de maneira a impedi-los de vangloriarem-se, como se pudessem anular os propósitos últimos de Deus. 

Em João 10.25-26, por exemplo, Jesus respondeu aos céticos que exigiam mais e mais provas: “Já vo-lo disse, e não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito. Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas”. 

Pense nisto por um momento. Pense acerca do que significa e no fato que Jesus proferiu tais palavras a pessoas incrédulas. Imagine-se como um fariseu ouvindo a mensagem de Jesus e dizendo a si mesmo: se Ele pensa que eu vou ser sugado para dentro desse movimento junto com coletores de impostos e pecadores, está louco. Eu tenho vontade própria e poder para determinar o meu próprio destino. Em seguida, imagine Jesus, sabendo o que se passa no seu coração e dizendo: “Você se vangloria em seu íntimo porque acha que tem o controle de sua própria vida. Você pensa que pode frustrar os planos máximos de meu ministério. Você imagina que os grandes propósitos de Deus na salvação são dependentes de sua vontade vacilante. Em verdade, em verdade eu lhe digo que a razão final pela qual você não crê é porque o Pai não o escolheu para estar entre as minhas ovelhas”. 

Em outras palavras, Jesus está dizendo: “O orgulho final da incredulidade é destruído pela doutrina da eleição”. Aqueles a quem Deus escolheu, Ele também os deu ao Filho; e aqueles a quem Ele deu ao Filho, o Filho também os chamou; e para aqueles que foram chamados, Ele deu sua vida; e para esses Ele deu alegria eterna na presença de sua glória. Este é o prazer do Pai. 

John Piper
Os Prazeres de Deus
(Portland, Multnomah, 1991), p. 137-139.

Expiação Limitada ou Eficaz


Talvez a discordância mais acalorada entre calvinistas e arminianos seja sobre a extensão da expiação. A questão diante de nós é simplesmente essa: Por quem Cristo morreu? A vasta maioria dos cristãos evangélicos poderia responder assim: “A resposta é fácil: Cristo morreu por todo o mundo.” Essa resposta mui provavelmente seria acompanhada com o obrigatório texto prova de João 3.16. Concordo que a resposta é fácil, mas a resposta evangélica comum está errada. Está errada de acordo com ninguém outro senão o nosso Senhor Jesus Cristo mesmo.

A visão arminiana da expiação universal implica que seria de alguma forma injusto se Cristo não morresse por todos. Se, contudo, Cristo derramou Seu sangue precioso por todo o mundo, segue-se uma questão lógica: por que todos não são salvos? A resposta comum a essa pergunta é que a incredulidade impede a salvação de pecadores por quem Cristo morreu e derramou Seu sangue precioso. Se é assim, sou compelido a apontar a triste situação do arminiano. A incredulidade não é um pecado? Se Cristo morreu por todos os pecados de todos os homens, então todo o mundo estará no céu. Se Ele morreu por alguns dos pecados de todos os homens, então ninguém estará no céu. Esses sãos as duas opções do dilema arminiano. Além disso, se Jesus morreu uma morte que tornou a redenção uma possibilidade hipotética para todos, então na verdade isso não assegurou a salvação para ninguém. Não existe conforto numa propiciação que não propicia ou numa redenção que não redime. Os calvinistas limitam a extensão da expiação de Cristo, mas os arminianos limitam o poder dela.

Argumentos lógicos de lado, o que Jesus ensina sobre a extensão de Sua expiação? Nosso Senhor claramente limita Sua expiação em Sua declaração em Mateus 20.28, quando Ele descreve o propósito de Sua vinda: dar a Sua vida como um resgate por muitos. “Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.” A grande passagem em João 10 é talvez a mais clara sobre essa questão. Nos vv. 11 e 15, Jesus diz que Ele dá a Sua vida pelas ovelhas. Os versículos 26 e 27 definem as ovelhas como aqueles que creem e seguem a Cristo. Portanto, Jesus está ensinando que Ele morreu somente por aqueles que creem nele. Em outras palavras, Jesus morreu somente pelos eleitos.

A oração sacerdotal de Cristo em João 17 é instrutiva também. Jesus não ora pelo mundo (v. 9). No versículo 20, Jesus diz que ele está orando por “aqueles que creem em mim”. Jesus estava orando em favor dos eleitos de Deus como Sumo Sacerdote deles. Contudo, Jesus não era apenas o Sumo Sacerdote, mas o sacrifício também. Como Sumo Sacerdote, Jesus não iria orar apenas pelos eleitos enquanto se oferecendo como sacrifício por todo indivíduo que viveria sobre a terra. Isso é similar a crer que os Sumos Sacerdotes de Israel ofereciam sacrifícios pelo Egito e pela Assíria no Dia de Expiação. Não, os sacerdotes ofereciam a Deus um sacrifício pelos pecados de Israel somente.


A vida, obra e ensino de Cristo demonstram claramente que Ele morreu por Seu povo (o Israel espiritual) e por eles somente.

Pense nisso!!!

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Eleição Incondicional


Hoje falaremos, em poucas palavras, sobre outra doutrina ensinada pelo nosso Senhor Jesus chamada ELEIÇÃO INCONDICIONAL. Nosso Senhor não somente ensinou a doutrina da eleição como um axioma, mas também fez referência à doutrina como uma pressuposição. Em Mateus 24, onde Jesus descreve a Grande Tribulação – que no contexto é claramente um evento no primeiro século – somos ensinados no versículo 22, que por causa dos eleitos, aqueles dias seriam abreviados. Por definição, “eleito” refere-se a alguém que foi escolhido por outro, não alguém que escolheu a si mesmo.

Jesus também ensinou a eleição em preceito. Ele diz em João 5.21 que Ele dá a vida à “aqueles que quer”. João 6.37 registra nosso Senhor dizendo às multidões que aqueles que vêem a Ele são dados pelo Pai: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.” A eleição é ilustrada também na escolha dos outros. Jesus diz a eles em João 15.16 que eles não O escolheram, mas que foram escolhidos por Ele. Mateus 11.27: “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.”; João 3.8: “O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito”; e João 6.37-66 são também declarações claras dos lábios do nosso Senhor ensinando a doutrina da eleição.

Se as palavras têm significado, Jesus ensinou a doutrina da eleição. Não há nada nas palavras do nosso Senhor que sequer sugira que a eleição está de alguma forma condicionada sobre as ações livres dos homens. A passagem de João 6 é especialmente refrescante em dias quando há tanta pressão para satisfazer ouvidos com comichão. “E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido. Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele” (João 6.65,66). Jesus não tinha medo de proclamar ousadamente a doutrina da eleição, mesmo se isso significasse perder seguidores.

Pense nisso!

terça-feira, 27 de maio de 2014

Total Depravação


Você já ouviu falar da doutrina da "Depravação Total" ou em inglês "Total Depravity"?

É o ensino bíblico que diz que o homem foi tão afetado pela queda que é totalmente incapaz de fazer qualquer bem espiritual e é, portanto, impossível que ele faça algo de si mesmo que contribua para a sua salvação. O homem não regenerado está espiritual morto e não pode entender a verdade espiritual. Ele, portanto, não tem capacidade de escolher a Deus.

Jesus mostra claramente que Ele ensinou a doutrina da incapacidade total. Em Mateus 13.11-17, Ele explica aos Seus discípulos a razão pela qual ensinava em parábolas. Ele lhes diz que eles tinham recebido a capacidade de conhecer os mistérios do reino, mas a outros isso não tinha sido concedido. Jesus estava ensinando que o homem caído não tem naturalmente a capacidade de entender Sua verdade. Nosso Senhor diz que tal capacidade é um dom de Deus. Jesus fala mais sobre o coração depravado e enganoso do homem em Mateus 15.19: “Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.”

Enquanto explicava a natureza do novo nascimento a Nicodemos em João 3, Jesus diz ao letrado mestre judeu que ninguém pode entrar no Reino de Deus, a menos que tenha nascido de cima. A analogia da salvação como um novo nascimento é significante. Nenhum de nós teve a capacidade de escolher o tempo e o lugar do nosso nascimento, nossa raça, ou qualquer outra característica genética. Um bebê não escolhe nascer pelo ato de sua vontade. O bebê não é capaz de fazê-lo. Assim se dá com o novo nascimento.

Em João 6.44, Jesus fala da total incapacidade do homem vir a Ele sem a graça compelidora do Pai. “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.” O homem caído não pode mudar sua própria natureza (e consequente incapacidade espiritual) não mais que um leopardo pode mudar suas manchas (Jr. 13:23), tornando-se dessa forma impossível que um pecador escolha a Deus antes da obra regeneradora do Espírito Santo. À luz dessas declarações deveria ser mais que abundantemente claro que o Filho do Homem ensinou a doutrina da incapacidade humana.

Pense nisso!!!!

Pensando alto!




Por anos, combateu-se a ideia de que os fins justificavam os meios, porque essa premissa justificava comportamentos antiéticos. Hoje, o problema aprofundou-se. Não se sabe mais o que é meio e o que é fim. Não se sabe mais se a igreja existe para levantar dinheiro ou se o dinheiro existe para dar continuidade à igreja. Canta-se para louvar a Deus ou para entretenimento do povo? Publicam-se livros como negócio ou para divulgar uma ideia? Os programas de televisão visam popularizar determinado ministério ou a proclamação da mensagem? 

As respostas a essas perguntas não são facilmente encontradas. Cristo não virou as mesas dos cambistas no templo simplesmente porque eles pretendiam prestar um serviço aos peregrinos que vinham adorar no templo. Ele detectou que os meios e os fins estavam confusos e que já não se discernia com clareza se o templo existia para mercadejar ou se mercadejava para ajudar no culto. A obsessão por dinheiro, a corrida desenfreada por fama e prestígio, a paixão por títulos, revelam que muitas igrejas já não sabem se existem para faturar. Muitos líderes já não gastam suas energias buscando um auditório que os ouça, mas procuram uma mensagem que segure o seu auditório. A confusão de meios e fins mata igrejas por asfixia.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Marcas da Institucionalização


A igreja tem duas dimensões: organismo e organização, corpo místico de Cristo e instituição religiosa, que convivem e se misturam enquanto fenômeno histórico e social. O grande desafio é fazer a dimensão institucional diminuir para deixar o organismo espiritual crescer. O que se observa hoje, entretanto, é um movimento contrário, no qual muitas comunidades cristãs caminham a passos largos para a institucionalização, sem falar naquelas que estão com os dois pés fincados no terreno da religiosidade formal. Senão, observe o que eu chamo de marcas da institucionalização da igreja.

1. Liderança personalista. Quando a comunidade acredita que algumas pessoas são mais especiais do que outras, abre brecha para que alguém ocupe o lugar de Jesus Cristo e se torne alvo de devoção. Ocorre então uma idolatria sutil e, aos poucos, um ser humano vai ganhando ares de divindade. Líderes que confundem a fidelidade a Deus com a fidelidade a si mesmos se colocam em igualdade com Deus e, em pouco tempo, pelo menos na cabeça dos seus seguidores, passam a ocupar o lugar de Deus. Eis a síndrome de Lúcifer.

2. Ênfase na particularidade do ministério. Uma vez que o projeto institucional se torna preponderante, a ênfase não pode recair nos conteúdos comuns a todas as comunidades cristãs. A necessidade de se estabelecer como referência no mercado religioso conduz necessariamente à comunicação centrada nas razões pelas quais “você deve ser da minha igreja e não de qualquer outra”. Torna-se comum o orgulho disfarçado dos líderes que estimulam testemunhos do tipo “antes e depois de minha chegada nesta igreja”.

3. Ministração quase exclusiva à massa sem rosto. Ministérios institucionalizados estão voltados para o crescimento númerico e valorizam a ministração de massa, que se ocupa em levar uma mensagem abstrata a pessoas que, caso particularizadas e identificadas, trariam muito trabalho aos bastidores pastorais. Parece que os líderes se satisfazem em saber que “gente do Brasil inteiro nos escreve” e “pessoas do mundo todo nos assistem e nos ouvem”, como se transmitir conceitos fosse a única e mais elevada forma de dimensão da ministração espiritual. Na verdade, a proclamação verbal do evangelho é a mais superficial ministração, e deve ser acompanhada de, ou resultar em, relacionamentos concretos na comunhão do corpo de Cristo.

4. Busca de presença na mídia. Mostrar a “cara diferente”, principalmente com um discurso do tipo “nós não somos iguais os outros, venha para a nossa igreja”, é quase imperativo aos ministérios institucionalizados. A justificativa de que “todos precisam conhecer o verdadeiro evangelho”, com o tempo acaba se transformando em necessidade de encontrar uma vitrine onde a instituição se mostre como produto.

5. Projetos ministeriais impessoais. Ministérios institucionalizados medem seu êxito pela conquista de coisas que o dinheiro pode comprar. Pelo menos no discurso, seus desafios de fé não passam pelos frutos intangíveis nas vidas transformadas, mas em realizações e empreendimentos que demonstram o poder das coisas grandes. Os maiores frutos da missão da Igreja são a transformação das pessoas segundo a imagem de Jesus Cristo e da sociedade conforme os padrões do reino de Deus, e não a compra de uma rede de televisão ou a construção de uma catedral.

6. Exagerados apelos financeiros. Consequência de toda a estrutura necessária para sua viabilização, os ministérios institucionalizados precisam de dinheiro, muito dinheiro. As pessoas, aos poucos, deixam de ser rebanho e passam a ser mala-direta, mantenedores, parceiros de empreendimentos, associados.

7. Rede de relacionamentos funcionais. A mentalidade “massa sem rosto” somada ao apelo “mantenedores-parceiros de empreendimentos” faz com que as relações deixem de ser afetivas e se tornem burocráticas e estratégicas. As pessoas valorizadas são aquelas que podem de alguma forma contribuir para a expansão da instituição. Já não existe mais o José, apenas o tesoureiro; não mais o João, apenas o coordenador dos projetos Gideão, Neemias, Josué, ou qualquer outro nome que represente conquista, expansão e realizações.

8. Rotatividade de líderes. Não se admira que muitos líderes ao longo do tempo se sintam usados, explorados, mal amados, desconsiderados e negligenciados como pessoas. O desgaste de uns é logo mascarado pelo entusiasmo dos que chegam, atraídos pela aparência do sucesso e êxito ministerial. Assim a instituição se torna uma máquina de moer corações dedicados e esvaziar bolsos de gente apaixonada pelo reino de Deus. O movimento migratório dos líderes de uma igreja para outra é feito por caminhões de mudança carregados de mágoas, ressentimentos, decepções e culpas.

9. Uso e abuso de conteúdos simbólicos. A institucionalização é adensada pelos seus mitos (nosso líder recebeu essa visão diretamente de Jesus), ritos (nossos obreiros vão ungir as portas da sua empresa) e artefatos (coloque o copo de água sobre o aparelho de televisão), enfim, componentes de amarração psíquica e uniformidade da mentalidade, onde o grupo se sobrepõe ao indivíduo e a instituição esmaga identidades particulares. Os símbolos concretos (objetos, cerimônias repetitivas, palavras de ordem) afastam as pessoas do mundo das ideias. Quanto mais concretos os símbolos, mais amarrado e dependente o fiel.

10. Falta de liberdade às expressões individuais. Ministérios institucionalizados, personalistas, dependentes de fiéis para sua manutenção financeira e psicologicamente amarrados pelos conjuntos simbólicos não são ambientes para a criatividade e a diversidade. Todos brincam de “tudo quanto seu mestre mandar, faremos todos” e, inconscientemente, acabam se vestindo da mesma maneira, usando o mesmo vocabulário, gestos e linguagens não verbais. Seus rebanhos são compostos não apenas por “massa sem rosto” e “mantenedores-parceiros de empreendimentos”, mas também por “soldadinhos uniformizados”, o que aliás, é a mesma coisa.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Não quero ser apóstolo!


Os pastores possuem um fino senso de humor. Muitas vezes, reúnem-se e contam casos folclóricos, descrevem tipos pitorescos e narram suas próprias gafes. Riem de si mesmos e procuram extravasar na gargalhada as tensões que pesam sobre os seus ombros. Ultimamente, fazem-se piadas dos títulos que os líderes estão conferindo a si próprios. É que está havendo uma certa, digamos, volúpia em pastores se promoverem a bispos e apóstolos. Numa reunião, diz a anedota, um perguntou ao outro: “Você já é apóstolo?” O outro teria respondido: “Não, e nem quero. Meu desejo agora é ser semi-deus”. Ser pastor agora está virando arroz de festa. Um outro boato que corre entre os pastores é que se no livro do Apocalipse o anjo da igreja é um pastor, logo, aquele que desenvolve um ministério apostólico seria um “arcanjo”.
Já decidi! Não quero ser apóstolo! O pouco que conheço sobre mim mesmo faz-me admitir, sem falsa humildade, que não eu teria condições espirituais de ser um deles. Além disso, não quero que meus serviços ao Reino gerem em mim ambição por sucesso ou prestígio.
Admito que os apóstolos constam entre os cinco ministérios locais descritos pelo apóstolo Paulo em Efésios 4.11. Não há como negar que os apóstolos foram estabelecidos por Deus em primeiro lugar, antes dos profetas, mestres, operadores de milagres, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas. Já que nem todos são apóstolos, nem todos profetas, nem todos mestres ou operadores de milagres, como consta na epístola aos Coríntios 12.29, parece não haver demérito em ser um mero obreiro.
Meus parcos conhecimentos do grego não me permitem grandes aventuras léxicas. Mas qualquer dicionário teológico serve para ajudar a entender o sentido neotestamentário do verbete “apóstolo” ou “apostolado”. Usemos a Enciclopédia Histórico-Teológico da Igreja Cristã, das Edições Vida Nova: “O uso bíblico do termo “apóstolo” é quase inteiramente limitado ao NT, onde ocorre setenta e nove vezes; dez vezes nos evangelhos, vinte e oito em Atos, trinta e oito nas epístolas e três no Apocalipse. Nossa palavra em Português, é uma transliteração da palavra grega apostolos, que é derivada de apostellein, enviar. Embora várias palavras com o significado de enviar sejam usadas no NT, expressando idéias como despachar, soltar, ou mandar embora, apostellein enfatiza os elementos da comissão – a autoridade de quem envia e a responsabilidade diante deste. Portanto, a rigor, um apóstolo é alguém enviado numa missão específica, na qual age com plena autoridade em favor de quem o enviou, e que presta contas a este”.
Jesus foi chamado de apóstolo em Hebreus 3.1. Ele falava os oráculos de Deus. Os doze discípulos mais próximos de Jesus, também receberam esse título. O número de apóstolos parecia fixo, porque fazia um paralelismo com as doze tribos de Israel. Jesus se referia a apenas doze tronos na era vindoura (Mateus 19.28; cf Ap 21.14). Depois da queda de Judas, e para que se cumprisse uma profecia, ao que parece, a igreja sentiu-se obrigada, no primeiro capítulo de Atos, a preencher esse número. Mas na história da igreja, não se tem conhecimento de esforços para selecionar novos apóstolos para suceder àqueles que morreram (Atos12.2). As exigências para que alguém se qualificasse ao apostolado, com o passar do tempo, não podiam mais se cumprir: “É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição” (Atos 2.21-22).
Portanto, alguns dos melhores exegetas do Novo Testamento concordam que as listas ministeriais de I Coríntios 12 e Efésios 4 referem-se exclusivamente aos primeiros e não a novos apóstolos.
Há, entretanto, a peculiaridade do apostolado de Paulo. Uma exceção que confirma a regra. Na defesa de seu apostolado em I Coríntios 15.9, ele afirmou que foi testemunha da ressurreição (vira o Senhor na estrada de Damasco), mas reconhecia que era um abortivo (nascido fora de tempo). “Porque sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus” (15.10). O testemunho de mais de dois mil anos de história é que os apóstolos foram somente aqueles doze homens que andaram com Jesus e foram comissionados por ele para serem as colunas da igreja, comunidade espiritual de Deus.
O que preocupa nos apóstolos pós-modernos é ainda mais grave. Tem a ver com a nossa natureza que cobiça o poder, que se encanta com títulos e que fez do sucesso uma filosofia ministerial. Há uma corrida frenética acontecendo nas igrejas de quem é o maior, quem está na vanguarda da revelação do Espírito Santo e quem ostenta a unção mais eficaz. Tanto que os que se afoitam ao título de apóstolo são os líderes de ministérios de grande visibilidade e que conseguem mobilizar enormes multidões. Possuem um perfil carismático, sabem lidar com massas e, infelizmente, são ricos.
Não quero ser um apóstolo porque não desejo a vanguarda da revelação. Desejo ser fiel ao leito principal do cristianismo histórico. Não quero uma nova revelação que tenha sido desapercebida de Paulo, Pedro, Tiago ou Judas. Não quero ser apóstolo porque não quero me distanciar dos pastores simples, dos missionários sem glamour, das mulheres que oram nos círculos de oração e dos santos homens que me precederam e que não conheceram as tentações dos mega eventos, do culto espetáculo e da vã-glória da fama. Não quero ser apóstolo, porque não acho que precisemos de títulos para fazer a obra de Deus, especialmente quando eles nos conferem estatus. Aliás, estou disposto, inclusive a abrir mão de ser rotulado qualquer coisa, se isso representar uma graduação e não uma vocação ao serviço.
Não desdenho as pessoas, sinto apenas um enorme pesar em perceber que a ambiência evangélica conspira para que homens de Deus sintam-se tão atraídos a ostentação de títulos, cargos e posições. Embriagados com a exuberância de suas próprias palavras, crentes que são especiais, aceitam os aplausos que vêm dos homens e se esquecem que não foi esse o espírito que norteou o ministério de Jesus de Nazaré.
Ele nos ensinou a não cobiçar títulos e a não aceitar as lisonjas humanas. Quando um jovem rico o saudou com um “Bom Mestre”, rejeitou a interpelação: “Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus” (Mc 10.17-18). A mãe de Tiago e João pediu um lugar especial para os seus filhos. Jesus aproveitou o mal estar causado, para ensinar: “Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mateus 20.25-28).
Os pastores estão se esquecendo do principal. Não fomos chamados para termos ministérios bem sucedidos, mas para continuarmos o ministério de Jesus, amigo dos pecadores, compassivo com os pobres e identificado com as dores das viúvas e dos órfãos. Ser pastor não é acumular conquistas acadêmicas, não é conhecer políticos poderosos, não é ser um gerente de grandes empresas religiosas, não é pertencer aos altos graus das hierarquias religiosas. Pastorear é conhecer e vivenciar a intimidade de Deus com integridade. Pastorear é caminhar ao lado da família que acaba de enterrar um filho prematuramente e que precisa experimentar o consolo do Espírito Santo. Pastorear é ser fiel à todo o conselho de Deus; é ensinar ao povo a meditar na Palavra de Deus. Ser pastor é amar os perdidos com o mesmo amor com que Deus os ama.
Pastores, não queiram ser apóstolos, mas busquem o secreto da oração. Não ambicionem ter mega igrejas, busquem ser achados despenseiros fieis dos mistérios de Deus. Não se encantem com o brilho deste mundo, busquem ser apenas serviçais. Não alicercem seus ministérios sobre o ineditismo, busquem manejar bem a palavra da verdade; aquela mesma que Timóteo ouviu de Paulo e que deveria transmitir a homens fieis e idôneos que por sua vez instruiriam a outros. Pastores, não permitam que os seus cultos se transformem em shows. Não alimentem a natureza terrena e pecaminosa das pessoas, preguem a mensagem do Calvário.
Santo Agostinho afirmou: “O orgulho transformou anjos em demônios”. Se quisermos nos parecer com Jesus, sigamos o conselho de Paulo aos filipenses: “Tende o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (2.5-8).

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Entrevista com Leandrão

Em uma edificante entrevista cedida ao Reflexões do Reino, Leandro "solta o verbo" e fala tudo.

Leandro Duarte de Oliveira atende por Leandrão no círculo dos amigos. Pessoa carismática e de forte personalidade, posa de pai coruja nos momentos com sua filha Ana Clara e sustenta a característica de ótimo esposo com sua amada Thaís Lopes de Oliveira.

Além de chefe de família, com seus 34 anos, Leandro é formado em Análise, Projeto e Gerência  de Sistemas na Instituição Pontíficia Universidade Católica do RJ e atualmente estuda Teologia no Instituto e Seminário Shalom.

Membro da Assembleia de Deus de Jacarepaguá (Taquara) sob a liderança do prestimoso Pastor Gilberto Gonçalves Malafaia, Leandro nos revela seus maduros pensamentos sobre diversos assuntos, falando-nos sobre família, planos para o futuro, teologia, política e outros.

Reflexões do Reino: Apesar de ter passado toda sua infância e adolescência na igreja, quando se deu, de fato, sua conversão?

Leandrão: Eu já nasci convertido. Brincadeira! Foi em um retiro espiritual (bons tempos). Estávamos reunidos em grupos de 15 pessoas orando de mãos dadas, o pastor perguntou se alguém queria aceitar Jesus. Nesse momento tive vontade de me apresentar e me questionei: “Eu com vontade de me converter? Sou crente desde criança. Todo mundo sabe que sou crente.”, mas fui tomado por uma necessidade enorme de dizer que eu queria me converter, então apenas fui. Quando percebi, já estava de joelhos com o Toninho Malafaia ao meu lado me abraçando e dizendo: “Muito bom Leandro! Valeu cara! Deus te abençoe.”

Depois da oração, umas pessoas me perguntaram: “Pensei que você já fosse crente, não era não?”. Eu respondi: “Eu também achava, mas pelo visto eu era filho de crente”.

Mas vou ser sincero, vivo em conflito porque não me considero convertido. Existem dias que consigo me considerar um pouquinho como tal, mas existem inúmeros dias que tenho vergonha das minhas atitudes e pensamentos. Quando estou nesse conflito, eu tiro uma cola do que Paulo diz em Romanos 7. Fica a dica de leitura!

Reflexões do Reino: Apesar da pouca idade, você experimentou uma mudança de gerações dentro da Assembleia de Deus. Em sua opinião, qual foi o maior problema nesse choque (conflito) de gerações? Você sente falta de alguma coisa da geração de sua adolescência que se perdeu nos tempos modernos?

Leandrão: Qualquer mudança é difícil de ser aceita. Mudanças geram situações que não esperamos, nos tiram da inércia, nos levam a pensar, questionar e, principalmente, ter um sentimento de perda. Seja a perda do que ficou para trás, ou ter que abrir mão de algo em função do que é novo.

No meu ponto de vista, a igreja (estou falando de todas) deveria tratar o processo evolutivo de suas gerações de maneira diferente. Não há mais interesse no que foi bom no passado; lembro que em minha adolescência, os mais velhos faziam questão em ressaltar bons exemplos das gerações anteriores e gostávamos disso. Olha que tenho apenas 34 anos.

Para ser mais claro, vou tomar os adolescentes como exemplo. Para a maioria dos nossos adolescentes de hoje, o passado é algo desinteressante, sem propósito e não condiz com a realidade. Recentemente tive acesso a uma pesquisa que mostra que com o advento da globalização o ser humano absorve em um ano o dobro de informação que ele absorveu em todos os anos anteriores da sua vida. Com tanta coisa a absorver e com tanto movimento de idéias, o passado tem perdido seu valor porque nós estamos o ignorando. Mas é no passado que estão nossas origens e, ignorando-o, acabamos esquecendo o que somos e de onde viemos.

Os líderes atuais estão valorizando coisas que não nos levam as nossas origens, hoje a palavra principal é olhar somente para frente em todos os sentidos e ter vitórias pessoais. Resumindo, o maior problema nesse choque de gerações que você mencionou, principalmente para a igreja, tem sido a falta de sabedoria para preservar valores do passado que estão se perdendo com a enxurrada de informações que temos nos dias de hoje.

Vale ressaltar que a figura do evangélico hoje (estou falando de Brasil) está bem mais exposta; vou exemplificar: para divulgar qualquer escândalo, antes do mundo globalizado, era necessário um esforço enorme por parte dos meios de comunicação, atualmente bastam dois ou três cliques e a notícia foi “enviada”. Logo, mesmo sabendo que os líderes do passado não eram “super-heróis”, não sabíamos das suas falhas com a frequência que sabemos hoje. A igreja brasileira não está preparada para lidar com essa facilidade de troca de informações, pois antes o que ficava escondido nos “bastidores”, hoje vem à tona em segundos e a vida de um pastor ou cantor é exposta.

Reflexões do Reino: Como você definiria o atual momento da igreja evangélica no Brasil?

Leandrão: Quando uma pessoa vai a um restaurante, ela analisa o cardápio, se o cardápio não tiver o que venha agradá-la, ela simplesmente levanta e procura outro restaurante, logo os restaurantes se preocupam em ter cardápios variados que agradem a todos. Percebo que as igrejas estão montando seu cardápio inspiradas nos restaurantes, identificando o que as pessoas querem e atendendo-as como clientes.

Você deve estar pensando: “Leandrão, qual o problema? Essa diversidade é boa!”. Concordo com você, mas me deixa concluir o raciocínio.

A fome que chegamos ao restaurante é do corpo e a fome que chegamos às igrejas é a fome da alma ou, se preferir, do espírito, aquela que é moldada à imagem de Deus, é a fome de justiça, da moral, dos princípios que estão presentes em nós, mas em muitas vezes vamos à nossa igreja alimentar a nossa carne e os princípios de Deus presentes em nós não são alimentados. Hoje as igrejas estão focando em alimentar mais a carne e menos ao espírito.

Reflexões do Reino: Qual a saída, ou uma solução, para sermos uma igreja relevante no seio da sociedade? Onde está o problema mor?

Leandrão: A solução é mudar o cardápio. É simples! Temos que mostrar que a salvação é o prato principal. Não estou sendo contra o culto da família, vitória, descarrego e etc. Tenho esses cultos como muito importantes, mas nenhum deles é o prato principal. O prato principal é salvação e amor ao próximo (doutrina bíblica).

Não posso deixar de falar que tem muita gente focada no prato principal. Tomo a liberdade para citar dois casais que trabalham muito no cardápio que julgo ideal. Primeiro, Reinaldo e Adriana. Eles fazem um trabalho, no meu ponto de vista, excelente na congregação Valqueire (uma das congregações da igreja que pertenço). Acompanho por fotos e por outros meios que me possibilitam saber como estão as pessoas lá e vejo frutos. Estão focando na comunidade em que estão inseridos e fazendo a diferença. Unem o social e salvação, uma fórmula eficaz. Segundo casal, Renato e Fátima, congregação de Santa Cruz (também uma congregação da igreja que pertenço). Esse lugar acompanho mais de perto e acredito que o caminho traçado lá é bem interessante. Em Santa Cruz, o foco é a doutrina bíblica, posso dizer que lá eles estudam a Bíblia na intenção de alcançar salvação. Sei que em ambos os lugares, há culto de libertação, família, vitória e outros, mas a salvação e transformação de vidas está em primeiro lugar.

Não citei outras congregações porque não tenho conhecimento do que fazem atualmente, por isso não falei, somente por isso mesmo. Citei essas duas para exemplificar e responder sua pergunta.

Reflexões do Reino: Já fiz essa pergunta antes para um de nossos entrevistados, mas não custa nada reproduzirmos; temos visto um crescimento numérico muito grande em nossas igrejas. Alguns mais otimistas dizem que estamos passando por um avivamento; os mais pessimistas dizem que estamos somente inchando. Como você vê esse crescimento exacerbado?

Leandrão: Desculpa, mas tenho que aproveitar o gancho da resposta anterior. Um bom cardápio faz o restaurante ficar lotado. O cardápio das igrejas tem andado atraente, logo, as igrejas estão lotadas.

Já teve a experiência de comer em um bom restaurante no dia das mães, namorados e etc? Os garçons ficam loucos, é uma correria e as coisas acabam não acontecendo da maneira ideal. Outro dia fui a um restaurante que estava lotado, pedi uma sobremesa que eu e minha esposa adoramos e infelizmente o prato veio sujo, o sorvete com gosto ruim e, para piorar, o bolo não estava na temperatura ideal. Sim, era um Petit Gateau! (rs)

Aonde quero chegar? Igreja lotada, no meu ponto de vista, não significa que está bem. O atendimento precisa ser de qualidade. Os pastores precisam saber os nomes das pessoas, precisam telefonar para elas, saber que um bebê está com febre e conversar e orar com os pais. Não vejo essa organização e nem esse foco nos dias de hoje. Eu recebo este tratamento, pois tenho muitos amigos na minha igreja, são 34 anos que estou lá e amo e sou amado por muitos. Tive problemas sérios no nascimento da minha filha, mas meu pastor estava literalmente do meu lado, foi me visitar no hospital, ele não precisou falar muito, simplesmente esteve lá e chorou conosco, mas as outras pessoas que passaram pelo mesmo problema em outras igrejas? Tiveram seu pastor ao lado? Sei que não tiveram, pois conheço inúmeros casos. Essas pessoas tiveram acompanhamento de membros da igreja, da família, mas não do seu pastor. Isso ficou no passado, sinto muita falta disso. Há pastores esforçados que tentam desempenhar bem essa função, mas são tantas ovelhas que o trabalho de pastor tem se tornado impossível e os pastores atualmente são mais pregadores (conferencistas) e administradores do que realmente pastores. E quanto mais membros, maior a dificuldade de ser pastor e consequentemente da igreja ser igreja.

Reflexões do Reino: Falando um pouco de Teologia, como você vê o avanço da famigerada Teologia da Prosperidade?

Leandrão:Vão rir de mim, mas eu gosto dela. Tem coisa boa, o problema é o uso. Os doutores portadores do diploma da prosperidade estão usando-a para seu proveito. Estão literalmente enganando muita gente com punhado de terra de Israel, com meia de R$ 150,00 que cura (isso mesmo, meia de colocar no pé), com R$ 911,00 mensais, com pregações que levam as pessoas a acreditarem que sem trabalho terão riquezas e etc. No meu ponto de vista isso é estratégia de satanás para acabar conosco e mudar o nosso foco!

Eu quero ser próspero, busco a Deus para me abençoar também, mas a palavra para o homem foi: “do suor do teu trabalho”. É trabalhando, estudando, tendo bons relacionamentos e não dando R$ 100,00 para receber R$ 1.000,00. Ou dar R$ 1.000,00 para receber uma rica oportunidade de trabalho no prazo máximo de um ano como vi, chorando, outro dia na TV. Isso é errado, porém as pessoas literalmente compram essa idéia!

Não deixarei de mencionar que prosperidade não é só financeira, mas já colocaram essa “balela” na cabeça do povo. É importante lembrar que Deus nos quer prósperos na nossa saúde, na nossa família, nos estudos, no relacionamento com o próximo, no caminho da nossa salvação e etc. Sei que há divergências e tem muitos equívocos em tal teologia, mas por que não retermos o que é bom?

Reflexões do Reino: Durante a história da igreja, no decorrer dos séculos, apareceram muitas correntes teológicas arrazoando para si o direito de “doutrina perfeita”. Das principais que conhecemos (Teologia da Libertação; T. da Esperança; Calvinismo; Arminianismo; T. Liberal e da Prosperidade), quais você acha que contribuíram para o pensamento teológico e quais foram as que mais afetaram a igreja?

Leandrão: Pode ser que não pareça, mas sou otimista. Usando cada teologia com olhar fixo em Jesus podemos extrair coisas muito boas.

Não entrarei em detalhes em todas, citarei uma para justificar meu raciocínio. A teologia liberal diz que a Bíblia tem erros, diz que há vários mitos no escrito bíblico, analisa as escrituras de uma forma diferente da que nós pentecostais estamos acostumados. Confesso que ao conhecê-la fiquei chocado, porém fui confrontado pelo próprio Deus. Parecia que Ele me falava: “Rapaz, por que não? Pode ser que esteja certo, qual o problema? Vai estudar!”. Pois é, fui estudar e descobri que temos que pensar em várias possibilidades e enxergar a PALAVRA DE DEUS de vários ângulos para aprimorarmos nosso conhecimento sobre Ele a cada dia. Confesso que não sou adepto dessa teologia, mas há pontos que eu utilizo no meu estudo e me ajudam muito, vou exemplificar. Primeiro, leio a Bíblia como um livro de teologia, depois eu volto a ler o mesmo texto com um livro da história do homem, depois eu leio como um livro de ciência, depois como um livro de registros históricos de um povo e, por fim, releio como um livro de teologia. Meu amigo, eu aprendo muito!

Concluindo, todas as teologias contribuem para o crescimento do caráter de Cristo em nós, desde que retenhamos somente o que é bom.

Reflexões do Reino: Quais são seus planos para o futuro? Já pensas no segundo filho (a)?

Leandrão: Pretendo me dedicar mais a minha família e ao meu pequeno projeto que foi abrir uma empresa de desenvolvimento de sistemas. Estou empenhado em crescer como empresa e como pai e marido, mas para isso é necessário mais tempo e estou abrindo mão de algumas coisas no momento.

Eu e Thaís estamos revendo algumas coisas na nossa vida. Uma dessas coisas é decidir se teremos ou não o segundo filho(a).

Reflexões do Reino: Quais literaturas têm moldado seus pensamentos, tanto na área profissional, acadêmica ou teológica?

LeandrãoProfissional: Não tenho lido nada. Fiz um acordo com Deus sobre leitura e neste acordo, durante o seminário, meu foco é somente teologia. Livros e estudo da área profissional só após os quatro anos do curso. Pode parecer radical, mas você não tem idéia de como tenho ganhado com isso. Eu sei, é coisa de maluco mesmo.

Acadêmica e Teológica
  • Entendes o que lês? - Gordon D. Fee & Douglas Stuart;
  • Conhecendo as Doutrinas da Bíblia – Myer Pearlman;
  • História dos Hebreus – Flávio Josefo; 
  • Os perigos da Interpretação Bíblica - D. A. Carson; 
  • Costumes e Culturas - Bárbara Burns, Décio de Azevedo & Paulo Barbero F. de Carminati; 
  • É proibido – Ricardo Gondim entre outros, mas no momento leio e estudo esses.


Reflexões do Reino: Quais são seus melhores amigos nessa caminhada cristã? Teria algum desafeto?

Leandrão: Na família: Thaís Cristina Lopes de Oliveira, Cleide Duarte de Oliveira, Márcia Lopes.

Amigos: Ana Lúcia Barbosa Jorge, Eduardo Jorge, Carlos Eduardo Rolim, Andréa Rolim, Eneide Ferreira, Lonir Ferreira, Renato Martins, Fátima Martins, Pastor Gilberto Malafaia, Pastor Gilberto Macedo, Wander Damasceno. NÃO NECESSÁRIAMENTE NESSA ORDEM.

Desafetos: sei que tenho muitos desafetos sem sabê-los, conquisto-os por falar o que penso. Esse meu comportamento objetiva que saibam o que penso e me corrijam quando errado ou concordem comigo quando estiver certo. É bem melhor do que não saberem minhas posições e sempre me verem como uma pessoa omissa. Se há algo que não tolero é omissão.

Reflexões do Reino: Qual seu envolvimento na campanha de seu amigo Marcos Leite a vereador? Pensas em se embrenhar na carreira política?

Leandrão: Ainda não me envolvi ativamente. Já conversei com ele, é meu amigo pessoal e terá meu apoio.

Tenho uma opinião forte sobre política: não é possível passar um filete de água limpa em um cano de esgoto. A política é o cano de esgoto!

Reflexões do Reino: Finalizando, gostaria de agradecer pela paciência e pelo tempo disposto a nós aqui do RR. Deixe um recado aos nossos leitores?

Leandrão: Eu que agradeço. Não me acho digno do seu convite. Vi seus entrevistados e me senti envergonhado, pois não tenho uma boa escrita e não me considero alguém relevante como seus entrevistados, porém, agarro-me a Eclesiastes 9.10: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.”

Para seus leitores, deixo esse recado:
Podemos julgar as atitudes das pessoas, mas devemos nos movimentar para ajuda-las. Podemos criticar o que quisermos, mas devemos pensar na solução do problema. Podemos expressar nossas opiniões, mas devemos tentar sempre fundamentá-las. Podemos nos rebelar por uma boa causa, Jesus é um bom exemplo, mas devemos nos submeter quando estivermos sem razão. Podemos discordar e debater com a nossa liderança, mas devemos acatar suas decisões quando decidimos nos submeter. Moramos em um país livre! Deus nos criou e nos dotou de raciocínio! Somos à imagem e semelhança dEle.
Não podemos ficar calados e entrar na “conversa” de somente deixar Deus agir. Se a ordem fosse somente depender da ação de Deus, a Bíblia não teria os termos “marche”, “tenha bom ânimo”, “levanta-te” e etc.

Criticar, rebelar e discordar não é pecado, desde que a Bíblia seja a base de seus argumentos. 

Um forte abraço, e fiquem na PAZ DE DEUS!

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