quarta-feira, 29 de julho de 2015

O problema de Mateus 11.12


A salvação é pela graça ou depende do esforço pessoal? Boa parte dos cristãos responderiam com um enfático "Sola Gratia!". Alguns, porém, diriam que é pela graça cooperando com esforço humano. E ainda alguns poucos afirmariam que depende fundamentalmente do empenho pessoal. Nestes dois últimos casos, pode-se buscar apoio em Mateus 11:12 onde Jesus diz que “desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele” (Mt 11.12). Entretanto, este texto é de difícil tradução e representa um desafio considerável de interpretação.

Algumas traduções existentes em português dizem que "o reino dos céus é tomado à força"(NVI, 2000; TB, 2010), que "o reino dos céus é tomado por esforço" (ARA, 1993), que "se faz violência ao Reino dos céus" (ARC, 1968; ARC, 1969; ARC, 1995), que "o reino dos céus tem sido assaltado com violência" (APC, 1991) e que "o Reino do Céu tem sido atacado com violência"(NTLH, 2000). Sobre a identidade dos que tomam o reino é dito que são “os que usam de força”(NVI, 2000), "os que se esforçam" (ARA, 1993; TB, 2010) ou ainda "os violentos" (APC, 1991; NTLH, 2000). Há boas razões para se optar por uma ou outra tradução, mas obviamente não podem todas estar igualmente corretas.

O termo traduzido para a expressão "tomado por esforço” e suas alternativas é biazetai, derivado de biazo, que significa "usar a violência, aplicar a força; forçar, infligir violência em". O termo só ocorre aqui e em Lc 16:16, mas cognatos de biazetai são usados na Septuaginta. Exatamente na mesma forma encontrada em Mt 11:12, o verbo só ocorre no apócrifo 4 Macabeus 2.8, com o significado de “aprisionar, tornar subserviente, dominar, forçar, violentar, subjugar, dominar, pisar”. O verbo está na voz passiva. A expressão “os que se esforçam” é tradução de biastai, substantivo que significa “forte, impetuoso, que faz uso da força, violento”“o que emprega a violência, pessoa impetuosa” ou “uma pessoa que apela para a violência para alcançar os seus objetivos”.

Uma questão que surge na análise de biazetai e biastai é se são usados de uma forma favorável ou desfavorável, ou seja, se denotam algo bom ou mau. Como vimos, biazetai está na voz passiva, o que significa literalmente que o reino “é forçado, vencido, superado, tomado pela tormenta”. A voz passiva de biazo só ocorre no sentido de uma subjugação hostil ou violenta, portanto, mau. No grego extra-bíblico biastes ocorre em Filo sempre num mau sentido. Uma vez que o termo biazetai na voz passiva implica o uso de força e até mesmo de violência, o sentido de que o reino sofre violência de natureza desfavorável parece-nos a mais provável.

Isto tudo considerado, entendemos que a leitura mais natural do texto é a que diz que desde o tempo de João o reino de Deus e seus trabalhadores sofrem violência da parte de seus inimigos, que tentam evitar ou usurpar o governo divino. O grego indica que o reino está sendo atacado e que homens violentos estão tratando de impedir que outros entrem. A prisão de João e a rejeição e execução de Jesus a acontecer logo em seguida corroboram essa interpretação. Sendo assim, os biastai (violentos) são os líderes religiosos dos dias de Jesus, que reclamavam por conta próprio um direito sobre o reino ou os grupos revolucionários que pretendiam um reino terreno, como os zelotes e outros ativistas, mas não os discípulos de Jesus. Herodes pode ser incluído nessa lista pois prendeu e iria executar João.

O contexto parece reforçar a ideia de que o reino é atacado por inimigos e que seus súditos são perseguidos. No capítulo anterior, quando Jesus enviou os doze dizendo “pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus” (Mt 10:7) avisou “eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos”(Mt 10:16) e acrescentou “acautelai-vos, porém, dos homens; porque eles vos entregarão aos sinédrios, e vos açoitarão nas suas sinagogas...” (Mt 10:17) “e odiados de todos sereis por causa do meu nome” (Mt 10:22). No capítulo 12 a perseguição anunciada no capítulo 10 e implícita no capítulo 11, começa a tornar-se explícita: “E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado” (Mt 12:2) e “os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem” (Mt 12:14).

Os violentos, então, não seriam discípulos determinados, mas inimigos que tentam arrebatar o reino pela força, não entrando e tentando impedir que outros tomem parte dele. Os discípulos de Jesus são descritos no mesmo capítulo, não como homens violentos ou valentes, mas sim como pequeninos e oprimidos: “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11:25-27).

Se esta interpretação estiver correta, o uso de Mt 11:12 para defender o esforço humano na obtenção da salvação é impróprio. Aliás, advogar a interpretação de que o reino de Deus é conquistado por pessoas esforçadas levanta sérios problemas com o ensino claro e inequívoco de que salvação é unicamente pela graça e pelo poder de Deus.

Soli Deo Gloria

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Minha confissão de fé


1. Creio que meu único objetivo na vida e na morte deve ser glorificar a Deus e gozá-lo para sempre; e que Deus me ensina a como glorificá-lo em sua santa Palavra, isto é, a Bíblia, que ele deu pela inspiração infalível do seu Espírito Santo, para que eu pudesse saber com certeza no que crer concernente a ele e quais deveres ele requer de mim. 

2. Creio que Deus é um Espírito, infinito, eterno e incomparável em tudo o que ele é; um Deus, mas três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo; meu Criador, meu Redentor, e meu Santificador; em cujo poder e sabedoria, justiça, bondade e verdade posso depositar minha confiança com segurança. 

3. Creio que os céus e a terra, e tudo o que neles há, são obra das mãos de Deus; e que tudo o que ele fez, agora dirige e governa em todas as suas ações; de forma que cumprem o fim para o qual foram criados; e eu, que confio nele, não serei envergonhado, mas posso descansar com segurança na proteção de seu amor todo-poderoso. 

4. Creio que Deus criou o homem segundo a sua imagem, em conhecimento, justiça e santidade, e entrou num pacto de vida com ele sobre a condição única de obediência, que era o seu dever: de forma que foi por pecar deliberadamente contra Deus que o homem caiu no pecado e miséria no qual nasci. 

5. Creio que, tendo caído em Adão, meu primeiro pai, sou por natureza um filho da ira, sob a condenação de Deus e corrompido no corpo e alma, tendente ao mal e suscetível à morte eterna; de qual estado terrível não posso ser liberto, salvo por meio da graça imerecida de Deus meu Salvador. 

6. Creio que Deus não deixou o mundo perecer em seu pecado, mas por causa do grande amor com o qual o amou, desde toda a eternidade escolheu graciosamente para si uma multidão que ninguém pode contar, para livrá-los do seu pecado e miséria, e deles edificar novamente no mundo seu reino de justiça: no qual reino posso estar seguro ter minha parte, se me apego a Cristo o Senhor.

7. Creio que Deus redimiu o seu povo para si através de Jesus Cristo nosso Senhor; que, embora fosse e sempre continua ser o eterno Filho de Deus, todavia nasceu de uma mulher, nascido sob a lei, para que pudesse redimir aqueles que estavam sob a lei: creio que ele suportou a penalidade devida aos meus pecados em seu corpo no madeiro, e cumpriu em sua pessoa a obediência que eu devia à justiça de Deus, e agora me apresenta ao seu Pai como sua possessão comprada, para o louvor da glória de sua graça para sempre: portanto, renunciando todo o mérito meu, coloco toda a minha confiança no sangue e justiça de Jesus Cristo meu redentor. 

8. Creio que Jesus Cristo meu redentor, que morreu por minhas ofensas, ressuscitou para a minha justificação, e subiu aos céus, onde se assenta à mão direita do Pai Todo-poderoso, faz contínua intercessão pelo seu povo, e governa o mundo todo como o cabeça sobre todas as coisas para a sua Igreja: de forma que não preciso temer nenhum mal e posso saber com segurança que nada pode me arrebatar das suas mãos, e nada pode me separar do seu amor. 

9. Creio que a redenção realizada pelo Senhor Jesus Cristo é eficazmente aplicada a todo o seu povo pelo Espírito Santo, que opera fé em mim e através da qual me uno a Cristo, renova-me no homem completo segundo a imagem de Deus, e me capacita mais e mais a morrer para o pecado e viver para a justiça; até que essa obra graciosa tenha sido completada em mim, e eu seja recebido na glória – na qual grande esperança habita –, devo esforçar-me para aperfeiçoar a santidade no temor de Deus. 

10. Creio que Deus requer de mim, sob o evangelho, em primeiro lugar, que, como resultado de um verdadeiro senso do meu pecado e miséria e apreensão da sua misericórdia em Cristo, devo me voltar com tristeza e ódio do pecado, e receber e descansar em Jesus Cristo somente para a salvação; assim, ao ser unido a ele, posso receber perdão para os meus pecados e ser aceito como justo aos olhos de Deus somente pela justiça de Cristo imputada a mim, e recebida pela fé somente; e assim, e somente assim, creio que posso ser recebido no número e ter direito aos privilégios dos filhos de Deus. 

11. Creio que, tendo sido perdoado e aceito por causa de Cristo, é adicionalmente requerido de mim que ande no Espírito que ele adquiriu pra mim, e por quem o amor é derramado em meu coração; cumprindo a obediência que devo a Cristo meu Rei; realizando fielmente todos os deveres que me são impostos pela santa lei de Deus, meu Pai celestial; e sempre refletir em minha vida e conduta, o perfeito exemplo que foi estabelecido por Cristo Jesus meu Líder, que morreu por mim e me concedeu o seu Espírito Santo, de forma que eu possa fazer as obras que Deus de antemão preparou para que eu andasse nelas. 

12. Creio que Deus estabeleceu a sua Igreja no mundo e concedeu-lhe o ministério da Palavra e as santas ordenanças do Batismo, a Ceia do Senhor e a Oração; para que através desses como meios, as riquezas de sua graça no evangelho possam ser feitas conhecidas ao mundo, e, pela bênção de Cristo e a operação do seu Espírito naqueles que pela fé recebem esses meios, os benefícios da redenção possam ser comunicados ao seu povo: razão pela qual é requerido de mim também que participe desses meios de graça com diligência, preparação e oração, para que por meio deles eu possa ser instruído e fortalecido na fé, e na santidade de vida e em amor; e que eu use meus melhores esforços para comunicar esse evangelho e transmitir esses meios de graça ao mundo todo. 

13. Creio que como Jesus Cristo veio uma vez em graça, assim também ele virá uma segunda vez em glória, para julgar o mundo em justiça e designar a cada um sua recompensa eterna: e creio que se eu morro em Cristo, minha alma será na morte aperfeiçoada em santidade e voltará para o Senhor; e quando ele retornar em sua majestade, serei ressuscitado em glória e feito perfeitamente bendito no pleno gozo de Deus por toda a eternidade: encorajado por essa bendita esperança, requer-se de mim tomar alegremente minha parte no duro sofrimento aqui como soldado de Cristo Jesus, estando certo que se morro com ele também viverei com ele, se sofro, também reinarei com ele. E a Ele, meu Redentor, com o Pai, e o Espírito Santo, Três Pessoas, um Deus, seja glória eternamente, para todo o sempre, Amém, e Amém.  

sábado, 18 de julho de 2015

As tocantes verdades da flor (Final)


A perseverança dos santos — dificuldades
Num cenário evangélico dominado por uma forma de arminianismo rasa e ingênua, é natural que existam ataques à doutrina da preservação dos santos. Muitas vezes, esses ataques buscam fundamento em textos bíblicos. A seguir são alistados alguns desses textos, com breves comentários que mostram quão distantes estão de ensinar a perda da salvação.
Mateus 10.22; 24.13 (com paralelo em Ap 2.26) — Esses versículos dizem que “quem perseverar até o fim será salvo”. Isso faz com que alguns entendam que a salvação é pela fé somada à firmeza e afirmam que crer em Cristo não basta, sendo preciso também ficar firme em meio às provas. Contudo, o próprio Mestre disse que é impossível que os escolhidos abdiquem de sua fé, mesmo nos tempos mais difíceis (Mt 24.24). Portanto, o que esses versículos realmente significam é que existe uma fé falsa que, não tendo origem divina, é sem resistência e cedo desaparece, tão logo surjam as provas. Na Parábola do semeador, Jesus falou dessa fé ilusória e passageira e a contrastou com a fé real e perene dos crentes (Mt 13.1-23). Assim, quando Jesus disse que quem perseverar até o fim será salvo, seu objetivo não era ensinar a perda da salvação ou a salvação pela fé somada à perseverança. Antes, seu propósito era declarar que os crentes verdadeiros são aqueles cuja fé é do tipo que perdura, haja o que houver (Hb 3.14). Os que não têm essa fé durável não serão salvos, pois uma fé assim não é a fé salvadora que Deus concede aos seus eleitos.
Romanos 11.17-22 — Nesse texto, Paulo usa uma analogia, dizendo que os crentes são ramos que foram enxertados na “oliveira” de Deus. Então, ele adverte esses “ramos” acerca do perigo de serem cortados. Muitos entendem que aqui Paulo alerta sobre o risco de alguém perder a salvação. Na analogia de Paulo, porém, ser parte da oliveira, não significa unicamente ser salvo. Note-se que, quando ele fala dos ramos naturais que foram cortados (v.17), não se refere a judeus que tinham sido salvos e que depois caíram dessa posição. Antes, fala de judeus que desfrutavam das bênçãos dirigidas a Israel, mas que nunca tinham experimentado o novo nascimento. Isso também podia acontecer com alguns gentios ligados à igreja de Roma. Eles podiam se beneficiar das bênçãos do evangelho e depois serem cortados do desfrute dessa “seiva” por não terem uma fé perseverante. Na verdade, isso é muito comum de se ver nas igrejas.
Gálatas 5.4 — Nessa passagem, o desligar-se de Cristo e o cair da graça podem dar a entender que isso se aplica a pessoas que estavam ligadas a Cristo e firmadas na graça, tendo depois perdido essa condição. No entanto, esse texto se dirige a pessoas que procuravam “ser justificadas pela Lei”, ou seja, a incrédulos judaizantes infiltrados nas igrejas da Galácia — pessoas que Paulo chama de “falsos irmãos” (2.4). Os termos usados nesse texto mostram que essas pessoas, na busca da justificação pelas obras, haviam se afastado de Cristo e se autoexilado longe dos domínios da graça.
Hebreus 6.4-8 — Ao contrário do que os arminianos dizem, esse texto não fala de crentes, mas sim de incrédulos que durante um longo tempo se envolveram com as coisas do Reino, participando de suas bênçãos e testemunhando seu poder, mas que, depois disso tudo, produziram somente coisas más. A ilustração dos vv. 7-8 mostra que o texto fala de pessoas sobre quem a “chuva” do Espírito caiu “frequentemente” e que, mesmo assim, produziram “espinhos e ervas daninhas”. Trata-se, portanto, aqui, de um incrédulo diferente, que ouviu, provou e testemunhou por anos a fio o poder do Espírito Santo, virando-lhe, afinal, as costas e mergulhando no mal. O v.6 diz que é “impossível” que esse tipo de incrédulo seja restaurado — algo que não se aplica no caso de desvio de crentes, conforme mostram a Bíblia e a experiência comum.
Hebreus 10.26-31 — Muitos entendem que a palavra “fogo” presente nesse texto se refere ao inferno e à perdição eterna que podem alcançar crentes que pecam deliberadamente. No entanto, a palavra fogo deve ser entendida aqui como um castigo presente, aplicado neste mundo. O v.28 mostra que é esse tipo de castigo que o autor tem em mente. Veja esse sentido também em 1Pedro 4.12.
Os inimigos da doutrina da perseverança dos santos não devem apenas rever a hermenêutica desses textos, mas também lidar com questões difíceis. Por exemplo: se alguém perder a salvação, como pode obtê-la novamente? A resposta a essa pergunta geralmente envolve alguma obra Iigada ao abandono do pecado. Assim, o que o crente deve fazer para restaurar sua comunhão com Deus se torna uma obra pessoal para restaurar sua salvação diante de Deus. No final das contas, a “segunda salvação” acaba sendo pela fé somada a uma medida que a pessoa toma para ser readmitida na igreja.
Outro problema diz respeito à segurança e à paz interior do crente. Se a salvação pode nos escorrer por entre os dedos, quando poderemos, de fato, descansar na redenção que há em Cristo? Quando poderemos saber que tudo está realmente “OK” entre nós e Deus? Ora, todos pecamos todos os dias! Como podemos saber se “ainda” estamos salvos? Sim, pois se a salvação se perde por causa do pecado pessoal do crente, quantos pecados bastariam para perdermos nossa herança? Um seria suficiente? Ou seriam necessários dez? E quanto tempo teríamos de permanecer nesses pecados para deixarmos de ser filhos de Deus? Um dia, um mês, um ano? E mais: quais pecados seriam mais eficazes em fazer com que percamos a salvação? Seria necessário adulterar, roubar e matar ou uma fofoca é suficiente para que sejamos condenados novamente ao inferno? Precisamos saber essas coisas para não ultrapassar os limites!
Ora, uma vida vivida nesse suspense está muito longe daquela realidade de paz, descanso e segurança que a Bíblia promete aos crentes em Jesus (Jo 14.1-3; Rm 5.1,2; 2 Tm 1.12; 4.8).
Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

As tocantes verdades da flor (Parte 7)


A perseverança dos santos
Chegamos ao último ponto da soteriologia reformada. Aqui, os oponentes do calvinismo se dividem. Muitos (especialmente entre os batistas) rejeitam os demais pontos, mas adotam esse. Outros rejeitam esse também (por exemplo, os assembleianos), dizendo que o crente tem de tomar muito cuidado para não perder a salvação. No cômputo geral, porém, a maioria dos arminianos acredita que o crente pode sim perder a condição de filho de Deus e herdeiro do céu.
Armínio nunca foi contra a doutrina da perseverança dos santos. Na verdade, ele disse apenas que acerca desse assunto era necessária uma reflexão maior. Assim, os que negam essa doutrina são os arminianos posteriores que tendem muito mais a centralizar no homem a responsabilidade por sua salvação.
A doutrina da perseverança dos santos é também chamada de doutrina da “preservação” dos santos e afirma que aqueles a quem Deus escolheu desde a eternidade e chamou de forma irresistível, ele também guarda da queda absoluta, sendo impossível que percam a salvação. Trata-se de um ensino que realça a segurança eterna dos salvos e fornece o fundamento teológico para a famosa fórmula: “Uma vez salvo, salvo para sempre”.
As bases bíblicas para a doutrina da perseverança dos santos são as seguintes: 
João 10.27-29 — Nesse texto, Jesus afirma que dá a vida eterna às suas ovelhas e que elas não podem perecer. Ele diz ainda que suas ovelhas estão em suas mãos e nas mãos do Pai, sendo que nada pode arrebatá-las dessas mãos.
Romanos 8.29,30,33-35,38,39 — Esses versículos indicam que aqueles que Deus predestinou serão fatalmente glorificados. Também destacam que os eleitos do Senhor estão acima de qualquer acusação e que absolutamente nada, no universo visível e invisível, pode separar essas pessoas do amor de Deus.
1Coríntios 3.15 — Esse texto ensina que, no dia do Tribunal de Cristo, até mesmo os crentes que o serviram mal serão salvos, deixando apenas de receber galardão.
1Coríntios 5.1-5 — Aqui Paulo fala de um crente que fornicava com a mulher do seu próprio pai. O apóstolo diz que esse homem devia ser expulso da igreja e afirma que, mesmo assim, ele seria salvo no dia do Senhor.
Efésios 1.13,14 — Nessa passagem, Paulo fala que os crente foram selados com o Espírito Santo da promessa e que esse selo é a garantia da sua herança até o dia da redenção (Ef 4.30).
1Coríntios 1.7,8, Filipenses 1.6, 1Tessalonicenses 5.23,24, 1Pedro 1.5; 5.10 e Judas 24,25 — Todos esses textos ensinam que é o próprio Deus quem firma o crente e o preserva em fidelidade até o último dia, sendo a perseverança dos santos uma obra dele operada em seus eleitos.
Mesmo diante de textos tão claros, os arminianos atacam ferozmente a doutrina da segurança eterna dos salvos. Geralmente, eles fazem isso alegando que esse ensino estimula o pecado e a lassidão espiritual. Segundo os arminianos, o crente que acreditar que a salvação não pode ser perdida não terá temor de Deus e viverá fazendo o que bem entende, sob a falsa segurança de que, de um modo ou de outro, irá para o céu.
Essas alegações, porém, decorrem da ideia nutrida pelos arminianos de que a fé salvadora é uma mera reação humana ao evangelho. Sabe-se, contudo, que, conforme já visto, a fé que salva é uma obra sobrenatural na vida daqueles que Deus escolheu. Essa fé sobrenatural é poderosamente transformadora e santificadora, sendo impossível que aquele que a tem viva continuamente no pecado, se revolvendo alegre na podridão deste mundo (1Jo 2.4,19). Decididamente, os que atacam a doutrina da perseverança dos santos com essas alegações não compreenderam o caráter transformador e renovador da fé salvífica (1Jo 5.4,5).
Os inimigos da preservação eterna dos santos também tentam basear suas ideias em alguns textos bíblicos. No próximo artigo vamos analisar brevemente esses textos.
(Continua)
Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

quinta-feira, 16 de julho de 2015

As tocantes verdades da flor (Parte 6)


A graça irresistível
De todas as pétalas da Tulipa, essa é a que eu acho a mais notável e bonita. Trata-se do ponto da teologia reformada que mais mexe com a nossa memória, fazendo a gente lembrar aquele dia maravilhoso em que o Senhor nos chamou doce e mansamente pelo nosso próprio nome e, rompendo a dureza do nosso coração, nos atraiu para si (Jo 10.2,3).
Mesmo, porém, envolvendo realidades tão ricas e belas, a quarta pétala da nossa flor não fica livre dos ataques da teologia humanista que reina no meio evangélico. Por isso, antes de tudo, é preciso destacar o que a graça irresistível não é.
Em primeiro lugar, a graça irresistível não é uma violência contra a personalidade ou, mais especificamente, contra a vontade humana (já vi arminianos dizendo que a doutrina da graça irresistível ensina uma forma de estupro espiritual! Outros dizem que ela transforma os salvos em marionetes. Para mim, essas afirmações beiram a blasfêmia). É claro que Deus não tem obrigação nenhuma de "respeitar" a vontade humana e ele, muitas vezes, sendo o Senhor soberano, a “atropela” (os arminianos usam esse termo para criticar os calvinistas), sem que isso em nada diminua ou detrate a grandeza de seu caráter (veja isso, por exemplo, na história de Jonas, em que a vontade do profeta de ir para Társis foi “atropelada” por Deus. Veja tb. Is 43.13 e Dn 4.35).
Na maior parte das vezes, porém, não é assim que age a graça irresistível. Essa graça, quase sempre, atua por meio do convencimento lento e paciente, algo que se processa frequentemente ao longo de anos — anos em que o Senhor busca o seu eleito em diferentes ocasiões, fala com ele aos poucos (por muitas e variadas formas), trabalha lentamente em seu coração e o persuade, enfim, a segui-lo.
Obviamente, há casos em que Deus age com vigor maior (veja como foi com Paulo, em At 9.3-5), mas mesmo nessas ocasiões, o Senhor atua na vontade humana, fazendo com que a pessoa creia nele e queira segui-lo. O fato é que ninguém se torna discípulo de Jesus “pela orelha”. Todas as suas ovelhas quiseram e querem segui-lo. A questão não é essa. A questão é como, estando espiritualmente mortas (depravação total), essas pessoas desejaram um dia segui-lo. E a resposta é simples: a graça irresistível de Deus atuou nelas.
Em segundo lugar a graça irresistível não é do tipo que nunca é resistida. Já vi arminianos dizerem absurdos do tipo: “Eu não creio na doutrina da graça irresistível porque eu mesmo resisti muito tempo antes de crer”. A pessoa que diz isso prova o que todos os calvinistas já sabem sobre o arminianismo moderno: é um modelo que critica o calvinismo sem saber o que ele ensina. Na verdade, a teologia reformada jamais negou que a graça salvadora de Deus pode ser resistida. O que o modelo reformado diz é que essa graça não pode ser resistida para sempre. Veja o exemplo de Paulo. O Senhor lhe disse: “Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões” (At 9.5). Essa frase talvez indique que Paulo estava sendo incomodado por Jesus já havia algum tempo, mas se recusava a se curvar. No fim, porém, o Senhor o derrubou (literalmente!) e a graça se mostrou então não somente salvadora, mas também vencedora.
Outras histórias, além da de Paulo, provam que a graça irresistível pode ser resistida por algum tempo, mas sai vitoriosa ao final, convencendo, humilhando, quebrantando e fazendo o indivíduo desejar o Salvador. Entre essas histórias, talvez o leitor possa acrescentar a sua própria, lembrando a forma especial, amorosa e paciente com que o Senhor, talvez ao longo de um lento processo, o buscou e o convenceu a segui-lo de todo o coração.
Tendo mostrado um pouco do que a graça irresistível não é, vamos agora ver o que ela é. Essa graça, quando em operação, é também denominada “chamado eficaz”, pois trata-se de uma vocação divina para a fé que, conforme vimos, no fim sempre sai vitoriosa. O chamado eficaz é diferente do chamado geral. Este é dirigido a todos os que ouvem o evangelho, enquanto aquele só é dirigido aos eleitos.
Por exemplo: veja o caso de Lídia, em Atos 16.13,14. Enquanto escutavam a pregação dos apóstolos, todas as mulheres ali ouviram o chamado geral (o convite dos pregadores a crer no evangelho), mas somente Lídia ouviu o chamado eficaz (o Senhor lhe abriu o coração). Note a diferença: o primeiro chamado (o geral) alcançou a todas; já o segundo (o chamado eficaz) só alcançou Lídia. Outro exemplo pode ser visto em Atos 13.46-48. Esse texto mostra que Paulo e Barnabé começaram a pregar para todos os gentios (chamado geral), mas creram somente os que haviam sido designados para a vida eterna (graça especial ou chamado eficaz). Foi por causa dessas realidades que Jesus disse em Mateus 22.14 que muitos são chamados (ouvindo o convite geral do evangelho), mas poucos são escolhidos (para atender o chamado de Deus). Esses “escolhidos” são aqueles que a eleição divina separou, de maneira que Deus atua neles de forma especial, conduzindo-os à fé.
Outros textos bíblicos que falam da graça irresistível são os seguintes:
João 6.37 — Nessa passagem, Jesus diz que aqueles que o Pai lhe dá irão até ele. Isso mostra que só podem ir a Cristo as pessoas que são sobrenaturalmente dirigidas pelo Pai. Ninguém pode ir por si mesmo, sem que Deus o capacite (veja os vv.44,65). É a essa condução e capacitação de Deus que chamamos de graça irresistível.
João 10.16 — Esse versículo mostra que Jesus tem seus escolhidos espalhados pelo mundo e que, no tempo devido, ele os chama individualmente (veja os vv.2,3). Quando isso acontece, essas pessoas ouvem a sua voz e o seguem numa nova vida de comunhão e conhecimento de Deus (veja Mt 11.27).
Romanos 8.30 — Aqui Paulo diz que aqueles que Deus predestinou, a estes também chamou, justificando-os a seguir. Obviamente, trata-se aqui de um chamado especial, dirigido somente aos que Deus predestinou. O chamado de que se trata nessa passagem é eficaz, pois é seguido pela justificação.
1Coríntios 1.26-29 — É clara aqui a alusão que Paulo faz à vocação especial de Deus. Ele estimula os coríntios a aprender algo sobre essa vocação observando os crentes em geral (os que “Deus escolheu”,vv.27,28). Ele afirma que Deus chamou de forma eficaz um número grande de “fracos”. Em contrapartida, essa chamada eficaz atuou num número pequeno de “poderosos”. O apóstolo ensina que a vocação salvífica foi administrada dessa forma para que a sabedoria do mundo fosse humilhada e ninguém se orgulhasse achando que foi salvo por algum mérito pessoal (veja Mt 11.25-26).
A doutrina da graça irresistível torna a flor reformada ainda mais linda, gerando humildade e gratidão no homem salvo, pois este saberá que creu não por ser mais inteligente ou apto, mas porque Deus agiu de modo sobrenatural em seu coração. E mais do que isso: essa doutrina remove também do “ganhador de almas” toda a base para o orgulho, mostrando a ele que, caso tenha algum sucesso em sua obra evangelística, isso será fruto da graça irresistível e do chamado eficaz de Deus, nunca dos seus talentos ou habilidades pessoas. Assim, o evangelista reformado dirá com Paulo: “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimentoPor isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.6,7).
(Continua)
Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

As tocantes verdades da flor (Parte 5)


expiação limitada – desafios
Os arminianos e os calvinistas de quatro pontos dizem que a doutrina da expiação limitada esbarra em textos bíblicos que dizem que Cristo morreu por todos ou pelo mundo inteiro. Alguns exemplos desses textos (com breves explicações calvinistas) são os seguintes:
2 Coríntios 5.15 – Esse versículo diz que Cristo “morreu por todos”, sendo essa a base para o desafio de viver para ele. Os universalistas hipotéticos entendem que aqui a palavra "todos" se aplica a cada ser humano. No entanto, uma leitura mais ampla e atenta revelará que, nesse texto o vocábulo, “todos” se refere a todos os crentes. Essa palavra aparece também no v.14 (“todos morreram”) onde esse é o único sentido possível. 
1 Timóteo 2.6 – Nessa passagem, há o registro da frase que diz que Cristo se entregou  “como resgate por todos”. Mais uma vez, os oponentes da teologia reformada entendem que aqui é ensinada a expiação ilimitada. Contudo, nessa passagem, a palavra “todos” se refere a todos os tipos de pessoas — servos e senhores, ricos e pobres, judeus e gentios, etc. (veja os vv.1-2, onde somente esse sentido é possível).
De fato, a análise do contexto histórico dessa passagem mostra que Paulo estava muito preocupado em quebrar a ideia proposta pelo gnosticismo incipiente da época de que somente uma elite de homens tinha privilégios espirituais (1Tm 1.3-7). Daí sua afirmação de que Cristo morreu por todos os tipos de pessoas, anulando as distinções ensinadas pelos hereges (veja tb. Tt 2.11 onde o sentido é o mesmo. Aliás, logo a seguir nessa passagem, o v.14 mostra o alvo limitado da expiação).
Hebreus 2.9 – Esse texto afirma que Jesus provou a morte “em favor de todos”. Será que isso comprova a doutrina da expiação ilimitada? É claro que não. Aqui a palavra "todos" se refere a judeus e gentios. Deve ser lembrado que a carta em questão foi escrita para cristãos judeus. Ora, no século 1 havia entre esses crentes a tendência a crer que somente pessoas da nação israelita seriam beneficiadas pela obra do Messias. Os cristãos hebreus não assimilaram de pronto a ideia de que o Cristo tinha vindo em benefício de todos os povos. Por isso, era necessária a afirmação de que o Messias havia morrido por todos (judeus e gentios), no afã de enfraquecer a noção de exclusivismo soteriológico israelita.
Ademais, nesse ponto é preciso lembrar que, na Bíblia, nem sempre é possível que a expressão “todo homem” e similares signifiquem cada indivíduo que vive no mundo. Veja, por exemplo, João 12.321 Coríntios 15.22 e Colossenses 1.28. Em todas essas passagens, as expressões “todos” e “todo homem” têm um sentido limitado. Isso é muito óbvio!
Além desses textos, existem aqueles que pertencem aos escritos joaninos (Evangelho de João; 1,2,3 João Apocalipse). Nesses livros, os versículos mais citados contra a expiação limitada são João 3.16 1 João 2.2. Os arminianos e os calvinistas de quatro pontos entendem que, nesses dois trechos, a palavra “mundo” significa cada ser humano que há na Terra e acreditam, com isso, derrubar a terceira pétala da Tulipa.
Contudo, nos escritos joaninos há vários textos que provam que o vocábulo “mundo” nem sempre (talvez nunca) pode significar cada indivíduo do planeta. Veja, por exemplo, João 1.296.33 e 16.8. Se nesses trechos o termo “mundo” abranger cada pessoa, então cairemos no universalismo, afirmando que todos os homens estão salvos, o que é um grande desvio doutrinário. Considere ainda 1João 5.19. Note que, nessa passagem, o termo “mundo inteiro” está restrito em sua aplicação apenas aos incrédulos, sendo excluídos os salvos.
Como, então, deve ser interpretada a palavra “mundo” em João 3.16 e 1 João 2.2? Nos escritos joaninos só existe um versículo que revela como o termo “mundo” deve ser entendido em textos como esses. Trata-se de Apocalipse 5.9. Esse é o único texto que mostra o que João tinha em mente quando dizia que Deus amou o mundo ou que Cristo é a propiciação pelos pecados do mundo. De fato, Apocalipse 5.9 indica que, quando João falava assim, ele não pensava em cada indivíduo que vive aqui, mas sim em homens espalhados por “toda tribo, povo, língua e nação”.
Assim, quando a boa teologia afirma que Cristo se entregou pelo mundo, isso significa que ele morreu por homens que vivem no mundo todo e não por todos os homens que vivem no mundo. Percebeu a diferença?
(Continua)
Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

terça-feira, 30 de junho de 2015

As tocantes verdades da flor (Parte 4)


A expiação limitada
Muitos arminianos tentam se livrar da doutrina da eleição incondicional, afirmando a eleição condicional. Eles dizem que a eleição é uma realidade bíblica, mas que está condicionada à previsão da fé. Trocando em miúdos: Deus elegeu sim, mas ele fez isso porque previu de antemão a fé de alguns. Essa ideia tenta buscar fundamentos na expressão “os que de antemão conheceu”, presente em Romanos 8.29. Essa frase, porém, não significa “aqueles em quem Deus anteviu a fé”, mas sim “aqueles a quem Deus decidiu de antemão mostrar seu favor” (veja o mesmo sentido em Rm 11.2). Note ainda que, de acordo com 1Pedro 1.20, conhecer de antemão não é somente saber o que vai acontecer, mas sim saber o que foi decretado que vai acontecer.
Outro texto que os arminianos usam na defesa da eleição condicional é 1Pedro 1.2 que diz que os crentes foram eleitos “segundo a presciência de Deus”. Contudo, a preposição grega usada nesse versículo (katá) não permite o entendimento de que as pessoas foram eleitas por causa da presciência de Deus, mas sim que Deus, de conformidade com sua presciência, sabia desde o início a quem iria salvar.
Tudo isso realça o antigo princípio paulino de que a eleição teve como causa “aquele que chama” (Rm 9.11) e não aqueles que são chamados, destacando fortemente que o decreto eletivo do Senhor se fundamentou unicamente no “beneplácito de sua vontade” (Ef 1.5,11) e não em virtudes que porventura tenha antevisto em alguns. Isso também destaca a gratuidade completa da eleição, pois mostra que ela não foi uma retribuição pelo bem que Deus supostamente viu de antemão no eleito (o que ele, de fato, anteviu no eleito foi somente pecado e morte) e sim um ato de graça pura, verdadeiro favor imerecido.
A verdade da eleição incondicional conduz forçosamente à terceira “pétala” da Tulipa: a expiação limitada. A pergunta central ligada a esse ponto é a seguinte: Se Deus tem seus eleitos, por quem então Cristo morreu? A resposta rápida e certeira é: Pelos eleitos, é claro! No entanto, mesmo sendo isso tão óbvio, a terceira verdade da flor é a que mais tem causado divisões e conflitos até mesmo entre os teólogos reformados. Entre estes há muitos que afirmam a expiação ilimitada, posição também conhecida como universalismo hipotético. De acordo com essa concepção, Cristo morreu em benefício e em lugar de todos os indivíduos, mas sua morte só tem eficácia para os eleitos.
Os universalistas hipotéticos (ou calvinistas de quatro pontos) ensinam que Deus decretou que a expiação de Cristo fosse feita em favor de cada ser humano independente de crerem ou não, mas visto que ninguém tinha capacidade de crer (depravação total), Deus escolheu aqueles que iria salvar (eleição incondicional). Assim, a expiação permanece eficiente e suficiente para todos, mas eficaz somente para os eleitos.
O universalismo hipotético ganhou destaque graças ao trabalho de Moisés Amyraut (1596-1664), da Academia de Saumur, na França. Por isso, essa posição teológica é também chamada de amiraldismo ou amiraldianismo.
Ainda que pareça atraente à primeira vista, o calvinismo de quatro pontos esbarra em diversos problemas. Em primeiro lugar, o próprio Jesus disse que daria a sua vida “pelas ovelhas” (Jo 10.11,15). Disse ainda que muitas dessas ovelhas por quem ele morreria estavam espalhadas fora do aprisco de Israel, mas que elas afinal creriam nele e ele as agregaria (Jo 10.16). Depois, voltou-se para os judeus que o afrontavam e disse: “Vós não sois das minhas ovelhas”, excluindo-os desse grupo por quem ele morreria e um dia chamaria para si (Jo 10.26).
Jesus também disse que daria a sua vida em resgate de muitos (Mc 10.45) e, ao instituir a Ceia, repetiu essa verdade, declarando que o sangue da Nova Aliança seria derramado em favor de muitos, limitando o alvo de sua obra (Mt 26.28).
João, em seu evangelho, ao fazer alusão ao objetivo da morte de Cristo, disse que ele morreria para reunir “os filhos de Deus que andam dispersos” (Jo 11.51,52), ou seja, pelo bem de um grupo específico que estava espalhado pelo mundo e que ainda não tinha sido alcançado (Tt 2.14).
Paulo, por sua vez, quando falou aos presbíteros de Éfeso, disse que o sangue de Cristo serviu para comprar a igreja (At 20.28). Quando mais tarde escreveu à mesma igreja de Éfeso, o apóstolo realçou novamente que Cristo se entregou pela igreja (Ef 5.25). O Apocalipse aponta na mesma direção, dizendo que por sua morte Cristo não comprou todo mundo, mas sim certas pessoas espalhadas pelo mundo todo (Ap 5.9).
Outra questão que deve ser levada em conta é que a morte de Cristo teve um efeito retroativo, beneficiando pessoas do AT, ou seja, indivíduos que já haviam morrido, como Abraão, Moisés e Davi, por exemplo (Rm 3.25; Hb 9.15). Assim, se Cristo morreu por cada ser humano, então ele morreu inclusive por pessoas do AT que já estavam no inferno — gente como Faraó, Jezabel e os inimigos de Daniel. Ora, que sentido haveria em Cristo dar a sua vida pelos pecados de pessoas irremediavelmente perdidas? Morrer pagando pela redenção do profeta Isaías faz sentido, mas morrer em favor dos homens de Sodoma teria algum propósito?
A doutrina da expiação limitada também tem que lidar com certas dificuldades oriundas de algumas passagens bíblicas. Por isso, no próximo artigo, vamos dedicar umas poucas linhas para resolver essas questões.
(Continua)

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

As tocantes verdades da flor (Parte 3)


eleição incondicional
Conforme dito anteriormente, as cinco verdades da Tulipa estão interligadas de forma que, se você rejeitar a primeira, terá de rejeitar a segunda e assim por diante. Pois bem, até o século 18, seria muito difícil encontrar um protestante que negasse o primeiro ponto da fé reformada, ou seja, a depravação total. Todos os reformadores tinham ensinado que o pecado havia afetado gravemente cada faculdade humana e os crentes viam isso claramente nas Escrituras. Consequentemente, a grande maioria dos crentes desde a época da Reforma (século 16) também aceitava a eleição incondicional, pois, se o homem era incapaz de se mover na direção de Deus, então a única saída era Deus tomar a iniciativa e se mover na direção do homem, quebrando seu coração endurecido. Por que Deus fazia isso somente com alguns e não com todos? A resposta estava mais uma vez na Bíblia: Deus tinha seus eleitos!
Ocorreu, porém, que os avanços científicos e tecnológicos dos séculos 18 e 19 criaram um ambiente intensamente otimista em relação ao homem e também fortemente cético em relação aos dogmas da Bíblia. Nesse contexto, várias doutrinas consagradas da fé cristã foram negadas inclusive por pastores e teólogos (os chamados teólogos liberais). Entre essas, uma que foi totalmente repudiada foi a doutrina do pecado original que destacava a realidade da depravação total. Rejeitando essa doutrina, as igrejas passaram a ver o pecador como alguém capaz de tudo, até de, por si mesmo, produzir a fé salvífica no próprio coração, bastando apenas que decidisse fazê-lo. É claro que, rejeitando a depravação total, os crentes, a partir de então, rejeitaram também a doutrina da eleição, ou a reinterpretaram de forma que preservassem seu conceito positivo do homem.
A partir daí, muitas pessoas viram nas ideias de Armínio uma opção atraente. Seu conceito de um livre-arbítrio resgatado pela “graça preveniente” e suas ideias de uma eleição baseada naquilo que Deus antevê no homem se encaixavam melhor dentro do ambiente humanista que passou a reinar.
É por causa de todo esse processo iniciado no século 18 — um processo racionalista/humanista — que grande parte das igrejas evangélicas de hoje é liberal ou arminiana. Aliás, muitos liberais são também arminianos (são os arminianos da mente, em contraste com os arminianos do coração), dizendo que o homem tem as faculdades livres (ênfase arminiana) e negando a depravação total como uma ideia decorrente do “mito” da Queda (ênfase liberal).
Conforme já foi destacado, sem a doutrina da depravação total, a verdade da eleição incondicional cai por terra. No modelo arminiano, o homem, tendo as faculdades livres dos efeitos do pecado pela ação da “graça preveniente”, é capaz de ele próprio eleger Deus. No fim das contas, a eleição deixa de ser um ato divino em favor do homem e passa a ser um ato humano em favor de Deus! Sem a doutrina da depravação total nasce a doutrina da inversão total!
A verdade, porém, é que não existe nenhuma graça preveniente livrando todas as pessoas das limitações impostas pelo pecado, como Armínio acreditava. O coração humano permanece corrupto e está morto para as coisas de Deus, sendo incapaz de buscá-lo, amá-lo ou desejá-lo. Para que isso mude, é necessária a ação sobrenatural da graça de Deus. E essa graça não atua sobre todos como pensam os arminianos. Atua somente nos eleitos. Estes foram escolhidos sem que Deus visse neles mérito algum (por isso, a eleição é chamada “incondicional”), tudo com base apenas na “determinação e graça” (2Tm 1.9) “daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).
Essa doutrina tem um vasto fundamento bíblico. Jesus afirmou que tinha um povo disperso que lhe pertencia e que ele reuniria esse povo chamando cada integrante dele pelo nome (Mt 24.31; Jo 10.3,16; Jo 11.51,52). Ele disse ainda que esses escolhidos eram poucos (Mt 22.14), mas que eles seriam preservados e protegidos do engano (Mt 24.22,24) e que Deus um dia faria justiça a eles (Lc 18.7).
O livro de Atos também fala sobre os eleitos dizendo que Deus tinha pessoas que lhe pertenciam nas cidades gentílicas e que essas pessoas ouviriam a pregação dos apóstolos (At 18.9,10). Em Atos, é dito ainda que os que criam no evangelho eram pessoas que tinham sido destinadas para a vida eterna (At 13.48).
Paulo é quem mais escreve sobre a doutrina da eleição (Rm 8.29,30; Ef 1.4,5,11), dizendo que essa doutrina realça a soberania de um Deus que tem autoridade de fazer o que quiser com quem quiser (Rm 9.14-18), não tendo o homem o direito de questionar suas ações (Rm 9.19-21). Paulo diz ainda que é graças à eleição que Deus preserva um remanescente fiel a ele (Rm 11.1-5) e que esses escolhidos não podem ser alvos de nenhuma acusação (Rm 8.33). Segundo o apóstolo, a fé salvadora pertence somente aos eleitos (1Ts 1.4-6; Tt 1.1), sendo certo que Deus incluiu no número de escolhidos muitas pessoas simples a fim de humilhar a ilusória grandeza do mundo e ninguém se gloriar diante dele (1Co 1.27-29. Ver tb. Tg 2.5).
Todas essas evidências tornam inegável a eleição de Deus — e os crentes não devem se insurgir contra ela, como faz a corrompida igreja atual. Em vez disso, o cristão deve se curvar em gratidão, sabendo que foi salvo não por ter percepções espirituais melhores, mas porque Deus, sem ver nele atrativo algum, o escolheu soberanamente.
(Continua)
Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

sexta-feira, 26 de junho de 2015

As tocantes verdades da flor (Parte 2)

A Depravação Total

Os teólogos dizem que as cinco verdades da Tulipa alistadas no artigo anterior estão interligadas, de forma que a segunda decorre da primeira; a terceira, da segunda; e assim por diante. Eles estão certos. De fato, os cinco pontos fixados em Dort compõem um sistema unificado e interdependente. Se um ponto for aceito, será muito difícil se livrar dos demais.

É por isso que os oponentes da Tulipa fazem de tudo para desacreditar o primeiro ponto de Dort, a depravação total. De acordo com esse ponto, o pecado afetou a totalidade da natureza humana, cada aspecto dela, não havendo nada que o homem, de si mesmo, consiga fazer para obter o favor divino. Calvino disse que “todos os homens são concebidos em pecado e nascem como filhos da ira, indispostos a qualquer bem salvífico, com propensão para o mal, mortos no pecado e escravos da iniquidade; e sem a graça regeneradora do Espírito Santo, eles não querem nem são capazes de se voltar para Deus, de corrigir sua natureza depravada ou mesmo de se disporem a isso”.

A base bíblica para essa doutrina é ampla: Gênesis 6.5; Salmo 51.5; Jeremias 17.9; João 8.43; 15.4–5; Romanos 3.10-18; 1 Coríntios 1.18; 2.14; 12.3; 2 Coríntios 3.14-16; Efésios 2.1-3; 4.17-18, etc. É por causa desse grau de depravação que o homem depende da iniciativa de Deus para ser salvo (Mt 11.27; Jo 1.13; 6.37,44,65; At 16.14).

Conforme dito, os que se insurgem contra a soteriologia reformada sabem que, se a doutrina da depravação total for acolhida, todo o sistema também terá de ser aceito. Por outro lado, se esse ponto for destruído, todo o edifício da soteriologia reformada ruirá.

No meio evangélico, os maiores inimigos da Tulipa são chamados arminianos, uma designação que vem de Jacobus Arminius, teólogo que se insurgiu contra alguns elementos da doutrina ensinada pela igreja reformada da Holanda. No Brasil, o arminianismo não reflete com precisão as ideias de Arminius. Na verdade, a maior parte dos arminianos que conhecemos se define assim somente porque não se simpatiza com a doutrina bíblica da eleição. A maioria deles nunca leu nada sobre Armínius, nem jamais compreendeu a totalidade da sua doutrina. O que fazem é apenas adotar o título “arminiano” de forma intuitiva, como se fosse uma palavra que significa “alguém que não acredita na predestinação”.

Isso torna o arminianismo brasileiro uma espécie de pelagianismo (doutrina que prega a salvação à parte da ação graciosa de Deus), mesclado com ideias liberais (como a negação da inerrância bíblica, especialmente nas partes em que a Escritura fala do controle absoluto de Deus sobre todas as coisas), marcado por extremado humanismo (a vontade humana é livre e soberana, capaz de gerar fé salvífica) e por um conceito reducionista de Deus (Deus abriu mão de sua soberania por “respeito” ao homem. Muitos arminianos dizem que Deus também abriu mão de sua presciência!).

Se Armínius soubesse o que hoje pregam em nome dele, certamente se reviraria em seu túmulo. Tendo formação calvinista, Armínius rejeitava frontalmente o pelagianismo pregado hoje em dia sob a capa do seu nome. Prova disso é que ele aceitava a primeira verdade da Tulipa, a depravação total. Ele cria, assim, que o ser humano, em si mesmo, é alguém totalmente destituído de qualquer capacidade de buscar a Deus. Ele escreveu em sua Declaração de sentimentos:

“Em seu estado pecaminoso e caído, o homem não é capaz, de e por si mesmo, quer seja pensar, querer ou fazer o que é, de fato, bom; mas é necessário que seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade e em todas as suas atribuições, por Deus, em Cristo, através do Espírito Santo, para que seja capaz de corretamente compreender, estimar, considerar, desejar e realizar o que quer que seja verdadeiramente bom”.

O problema de Armínius estava na solução que dava para esse problema. Ele criou o conceito da “graça preveniente” pela qual todo ser humano tem seu livre arbítrio restaurado, podendo então aceitar a Cristo por decisão própria, sem a necessidade da graça especial irresistível (quarto ponto da Tulipa). É impossível achar na Bíblia esse conceito de “graça preveniente” ou “graça capacitadora” dada a todo ser humano. Aliás, na Bíblia se encontra exatamente o oposto disso, ou seja, Deus endurecendo ainda mais o coração de muitas pessoas para que não creiam (Êx 9.12; Is 6.10; 63.17; Rm 9.18; 11.7 e 2 Ts 2.11).

Bom, em termos práticos quais são os efeitos de se aceitar ou não a doutrina da depravação total? Pessoalmente, eu acredito que isso cause impacto no campo da devoção pessoal, no campo da realização ministerial e no campo da liturgia. Eu explico: no campo da devoção pessoal, o crente que entende a doutrina da depravação total se torna mais humilde e grato por sua salvação, entendendo melhor o quanto Deus foi gracioso com ele. Ele será incapaz de se orgulhar por ter “aceitado a Cristo”, sabendo que era incapaz de qualquer coisa e que, se um dia creu, isso foi graças ao grande poder e graça do Salvador.

No campo da realização ministerial, o ministro terá descanso. Ele saberá que as conversões não dependem de sua retórica ou talento e, por isso, não cansará as pessoas com apelos infindáveis para que “tomem uma decisão”. Também não se orgulhará quando conduzir pessoas a Cristo. Antes, saberá que todos os frutos que vê em seu ministério são obra de Deus e que, considerando a depravação do homem, ninguém daria atenção às suas pregações se o Senhor não atuasse de modo poderoso nos ouvintes.

Finalmente, no campo litúrgico, a igreja que entender a doutrina da depravação total não investirá em projetos de “multiplicação” adotando estratégias de marketing barato (festas, diversão, atrações artísticas) para “conquistar almas”, fazendo de tudo para convencê-las a usar o “livre-arbítrio” e crer. Antes, dará mais valor à pregação e à súplica, sabendo que só pelo poder de Deus a dureza humana pode ser rompida.

(Continua)
Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

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